Porque ser tia é gerar com o coração ou sobre a “tiaternidade”

Por Rita Durigan

Depois que minha filha, meu marido e eu deixamos a casa dos meus pais no interior de São Paulo, após a última visita antes de nos mudarmos pra Chicago, passei dias imaginando uma situação que foi difícil apagar da mente e do coração: eles aos poucos guardando os brinquedos espalhados pela casa, ajeitando o bercinho que compraram pra ela, guardando o sabonetinho e a toalhinha ainda com o cheirinho fresco da nossa Valentina… Imaginava a proporção dessa saudade de uma netinha, primeira e única, que estava mudando pra bem longe e ia demorar tanto pra voltar pra casa do Vovô e da Vovó.
Como seriam as madrugadas sem o chorinho nas horas das mamadas? E as manhãs sem aquele risinho gostoso?

Também trouxe comigo o choro sentido e já saudoso do meu irmão. A pessoa com quem compartilhei momentos de uma infância incrivelmente simples e feliz. Minha primeira referência da espera por uma nova vida… Ah, e como eu pedia um irmãozinho aos meus pais. E como eu esperei por ele e o amei cada segundo, desde que soube que ele estava a caminho. E agora estava ele ali, chorando tão intensamente como no dia que anunciei que estava grávida. Mas agora era um choro de saudade. E eu era responsável por isso. Como foi difícil, pq qdo você gera uma vida, você é responsável por ela e pelas relações a partir dela. Ainda bem que meu Betinho tinha sua Soraia para o consolar. Ou pra chorar juntos, como fizeram.

Nos mudamos e encontramos nosso jeito de conviver através do computador. Falando diariamente, contando e ouvindo sobre nossas vidas, detalhando pra continuar fazendo parte uns da história dos outros. Tem dado certo. Ajuda a minimizar a saudade. E viva o Skype.

E foi assim, pelo Skype, que hoje eu soube que meu irmão, meu irmãozinho, vai ser Papai. Vai passar pela incrível experiência de ter um filho. Meu irmãozinho. Meu Deus. Que notícia feliz: vou ser titia. Vou ser titia, vocês ouviram? VOU SER TITIA. Rsss

Já chorei e já sorri. Já relembrei tanta coisa, nossa infância. O nascimento da minha filha… Eles vão passar por isso, meu irmãozinho e a mulher que ele escolheu pra viver lado a lado… (Mais lágrimas e risos e borboletas no estômago).

E eu que pensei que não coubesse mais amor em mim, estou descobrindo aos poucos, enquanto a ficha cai, que ser tia é gerar um serzinho no coração. Ele, ou ela, é uma vidinha em desenvolvimento na barriga da Mamãe Soraia, e no meu coração tbm 😉

Mãe, pai, vão tirando os brinquedinhos do armário, o sabonetinho da gaveta e preparem o bercinho que tem bebê novo no pedaço. Ele, ou ela, não vai substituir a saudade nem o amor pela Valentina, claro. É um amor novo, também único, que tem seu próprio espaço. Mas que vai trazer de volta, e por muito mais tempo, a alegria de uma criança com sua bagunça colorida, seus brinquedos esparramados, seu risinho gostoso e seu cheirinho de bebê preenchendo a casa.

Betinho e Soraia (foto) enxuguem as lágrimas que a alegria agora também mora em vocês. Vai ter nome – que ainda não sabemos qual é – e será mais um ótimo motivo pra voltarmos pra casa várias vezes e visitar vocês, agora 3.

Obrigada por me permitirem viver a “tiaternidade”. Com amor, da titia mais feliz do mundo.

Betinho e Soraia em seu casamento, dia 16 de fevereiro de 2013

Betinho e Soraia em seu casamento, dia 16 de fevereiro de 2013

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