Mamãe eu não quero, Mamãe eu não quero, Mamãe eu não quero mamar. Uma Saga de Carnaval

Por Dede Lovitch

Carnaval 2014, sexta-feira 20h, Constance olha pro peito, vira o rosto e abaixa minha blusa. Sai brincando, está agitada (talvez mais que o normal, não estou muito certa…), pede água, bebe meio copo, ofereço uma maçã, ela aceita e come todinha. Sai correndo e continua brincando com o irmão, esse por sua vez já sente algo estranho no ar e me pergunta: “Mamãe? A Cons não tá querendo mamar?” Respondi que não, mas pelo jeito que devo ter respondido ele rapidamente formula uma frase de conforto: “Não é nada não mamãe, já, já ela quer”, fiquei encanada mas resolvi não pensar mais e esperar até que ela solicitasse.

Bem, 21h, ela começa a dar sinais de sono e procura meu colo, só meu colo, entenderam? Nada mais… Deitou no meu colo e começou a rolar de um lado pro outro, um chorinho aparecia às vezes, eu tento ficar em pé, nada, sento novamente, nada, deito, levanto, sento, balanço, canto, fico no silêncio, escuro, claro, nada, nada parece acalmar essa menina, chora, chora, berra e começo a pensar que está com alguma dor, apalpo aqui, ali e não consigo identificar nada, nada além de irritabilidade. Resolvo oferecer uma pera, ela aceita o pedaço que dou na sua mão, se acalma um pouco, sai brincando novamente.

Já são quase 23h, ela começa procurar meu colo, mais uma vez, só meu colo, se ajeita entre meu corpo e o sofá, enfim, adormece. A coloco na cama e penso que talvez a hora tenha chegado, ela não quer mais mamar.

Estava correndo numa avenida escura, com vários carros estacionados, todos da mesma cor, meio marrom, achei aquilo bem engraçado, parei de correr e caí na gargalhada quando… fui acordada pelo seu choro, um choro alto, gritante e meio desesperador, 2h da manhã, levantei rápido e a peguei, balancei, a virei de bruços, desvirei, a coloquei com a cabeça no meu ombro, sentei, levantei, andei e tudo aquilo que já falei, nada, nada a consolava, o choro diminuía, parecia que ia dormir, mas de repente despertava irritada. O peito? Nem olhava, nem encostava, parecia que não existia. Foi dormir 6:30h, sem mamar.

Acordamos às 10h, meu peito parece uma pedra, encheu muito, sinto dor e resolvo tirar um pouco na pia do banheiro, ela não quer mamar. Começo um processo de desapego da situação, me inspiro na própria Constance, como ela, uma bebê que adorava mamar, que tudo era motivo para mamar, abandona o hábito assim, de uma hora para outra? Que lindo esse poder de desapego…

Assim vão se passando os dias do feriado de carnaval, todos acompanhados de muita irritabilidade na hora de dormir (mas, em compensação, estava comendo muito, muitíssimo bem) sábado, domingo, segunda… até que terça ela acorda, me olha, fala oii e bate no peito, assim que ela costuma pedir pra mamar. Eu a coloco no colo, abro o pijama, desabotoo o sutiã e ela abocanha, aquele peito enorme, duro e cheio, escuto aquele barulhinho, gloop, gloop, gloop. Meu peito voltou ao normal e ela voltou a mamar como se nada tivesse acontecido.

O Bernardo acorda e num pulo só vem parar na minha cama e fala: “Mamãe! Não falei que ela ia querer?”
Ah, aí eu pirei no pensamento e na ideia do desapego, que máximo, era o desapego ao desapego.

A amamentação é uma das coisas mais maravilhosas que eu já descobri sobre mim mesma e sobre toda a força que nós mulheres carregamos dentro de nossos corpos e almas. Nos ajuda na conexão com a natureza, nossa natureza, é ter a oportunidade de descobrir que alimentar nossa cria é inerente ao nosso ser.

Estamos tão longe de nossa essência que precisamos reaprender e relembrar como amamentar, precisamos de livros, órgãos governamentais, propagandas na mídia para nos convencer que amamentar é uma necessidade dos bebês e das mães.

Bom, a Constance poderia ter parado de mamar definitivamente, principalmente na época do carnaval que se considera um momento de rupturas. Acredito que seja o começo do processo que ela mesma entrou e que eu achei um caminho para compreender e não sofrer tanto. Sofrer sim, porque o vínculo foi criado e com ele vem o hábito e como adulto racional que sou, sofro com mudanças bruscas. Mas, claro, tenho plena ideia do dever cumprido, alimentei minha cria.

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3 thoughts on “Mamãe eu não quero, Mamãe eu não quero, Mamãe eu não quero mamar. Uma Saga de Carnaval

  1. Vivian diz:

    Primeiramente parabéns meninas pelo Blog. Pati não consegui te parabenizar antes. A vida de mãe, trabalho, estudo, casa , marido é corrida né ,e me deixou um pouco desorganizada (Isso pq tenho um marido e pai maravilhoso, que me ajuda muito).
    Em relação ao texto da Dede: lindo texto. Penso nisso o tempo todo. Me emocionei ao ler, pois a Sophia faz exatamente como a Constance; encosta no meu peito , passa a mão como que fazendo um carinho e fica esperando todo aquele ritual. Penso nessa hora do desapego: tanto da Sophia quanto meu, fico triste e ao mesmo tempo feliz pois, como vc Dede, também penso no dever cumprido. Meu sonho acima de ser mãe era de amamentar: que intenso , que sublime , que maravilhoso é amamentar. Estou realizada e faria tudo de novo ou melhor farei tudo de novo e se Deus quiser em breve.
    Bjos

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