VINÍCIUS, você me complicou

Por Paty Juliani

“E abre-se a porta da arca
Lentamente surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca”

Aqui em casa, eu e minhas meninas sempre ouvimos Vinícius de Morais e sua Arca de Noé. Mas, a medida que minha pequena foi crescendo, as perguntam começaram a surgir.
E elas estão cada vez mais complicadas.
Tentar explicar a música “A Arca de Noé” parecia tarefa fácil. Parecia! Ela adora essa música e quis saber o que e sobre quem estavam falando.
“Então o Papai do Céu avisou o Noé que ia chover e ele fez a Arca para colocar os bichos? E depois da chuva eles saíram?”
“Sim, isso mesmo. Você entendeu. Quando a chuva acabou, ele, sua família e os bichos saíram e o mundo que você conhece começou a existir. Isso que fala essa música. As outras músicas são sobre os bichos.”
Ela se convenceu. Pelo menos naquele momento.
Mas eu sabia que aquilo era o começo de muita, muita conversa.

Criança curiosa e atenta é sempre um presente.
Curiosidade, aliás, é uma das melhores qualidades que alguém pode ter.
Pessoas curiosas querem aprender o que não conhecem; sentir o que não viveram; experimentar novos sabores; ver com outros olhos; ouvir diferente argumentos e estão sempre abertas e a procura do novo.
Crianças curiosas mais ainda.
De uma resposta, surgem inúmeras perguntas. O que é mágico e desafiador.

Depois daquela conversa, muitas perguntas vieram sobre o Noé e sua Arca.
E eu explicando. Ou melhor, tentando explicar de uma maneira cuidadosa, ciente de minha dificuldade.
Dificuldade essa em contar uma história religiosa com sutileza e suavidade. Dificuldade que também encontro, sempre, ao tentar contar, com naturalidade, histórias que mencionam diferenças sociais, econômicas e seus reflexos – como João e Maria, que são abandonados na floresta porque os pais eram pobres (e eu sempre modificando essa parte…), A Pequena Vendedora de Fósforo (que engasguei durante todo o tempo e quando terminei, percebi o silêncio e uma certa tristeza – nunca mais pediu para eu ler essa história) e Robin Hood com sua justiça social (como explicar que os fins justificam os meios? justificam? essa rendeu e renderá muita conversa e muitas perguntas – o que merece um post exclusivo, com toda certeza).
E ontem, antes de dormir, resolvemos ler o livro da Arca de Noé que escolhi na livraria, depois de muito procurar. Um livro de ilustrações claras, linguagem simples e sem tanta conotação religiosa. Ruth Rocha é sempre compreensível para as crianças. Então, embarcamos nessa.
Depois de ver a ilustração da cidade submersa, veio a pergunta:
“Tudo afundou, né mamãe?”
“Sim, tudo afundou, menos a Arca.”
“E os humanos?”
“Não sobrou ninguém.”
“Todos morreram?”
“Sim.”
Pensou um pouco e falou:
“Eles eram em 6, né?”
Nessa hora não agüentei. Tirei o livro, dei uma gargalhada, agarrei minha pequena e dei muitos e muitos beijos.
Feliz!
“Sim, eram poucos meu amor. Muito poucos. Mas não se preocupe, logo veio o arco Íris avisar que isso nunca mais ia acontecer.”
Ela se convenceu (por enquanto) e dormiu.
Afinal de contas, Papai do Céu é bom. E quem é bom sabe entender e perdoar.
Não é assim que mamãe ensina?

IMG_0833

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s