As doces marcas do tempo que passa

Post do Facebook, 5 anos atrás (22/setembro/2010): Fazendo embaixadinha de salto alto, vestido e com a Bola Vermelha

Postado no Facebook há 5 anos: Fazendo embaixadinha de salto alto, vestido e com a Bola Vermelha (22/set/2010)

por Rita Durigan

Hoje o Facebook me lembrou deste dia ai das fotos. Estava recém-casada e chegando da Lua de Mel em Nova York, minha primeira vez nos Estados Unidos. Feliz e com os olhinhos brilhando. Magrinha (corpo de noiva). Cabelão longo (de noiva) sem necessidade de tantos retoques pra esconder os brancos e com tempo suficiente para sempre estar maquiada e de unhas feitas.

Trabalhava na Publicis, onde aprendi tanta coisa. Trabalhava bastante. Mas tinha um anjo sem asas que uma vez por semana cuidava da casa por mim, pra nós. Limpava, arrumava, lavava, passava e deixava uma comida deliciosa feita para os próximos dias. A Ana, muita gente já me ouviu falar dela.

Voltando a sequência de fotos ai de cima, eu era assessora de imprensa – ainda sou – e estava em meio a divulgação da campanha da Bola Vermelha: “Doe Sangue e passe a bola para um amigo”, de Pró-Sangue. Um trabalho capaz de salvar vidas.

Equilibrando a bola de salto alto e vestido e me achando o máximo.

Cinco anos e uma filha depois, continuo casada e feliz. Ainda mais. Hoje eu moro nos Estados Unidos, mas fico triste por ver meu Brasil assim, tão sem esperança, enquanto vivo em uma sociedade que mostra o tempo todo que pode dar certo, é só querer.

Meu corpo não é mais o mesmo. Não mesmo. Cortei o cabelo por ser mais prático e vivo de prontidão pra esconder os fios brancos. Meus olhos ganharam mais brilho, assim como rugas e olheiras. Meu rosto raramente é maquiado.

Agora trabalho de casa e continuo aprendendo – e trabalhando – muito. Mas também trabalho para a casa lavando (roupa, louça, banheiro), passando (ok, só passo se a roupa estiver vergonhosamente amassada), cozinhando, limpando… – aqui nos EUA pagar pra que façam isso por você é a exceção, não a regra. E isso me fez valorizar ainda mais tudo que a Ana fez por nós. E tantas ajudantes de casa que passaram por minha vida, mesmo na infância. Inclusive minha mãe.

Hoje, mais do que nunca, me preocupo com a qualidade do que coloco na mesa ou do que como na rua; com o tom de voz e as palavras que vou usar. Hoje peço mais desculpas do que antes. Reconheço mais erros e tento corrigir a rota mais vezes. Digo mais por favor e obrigado, pois acredito na educação pelo exemplo e tenho sempre por perto uma garotinha de 2 anos e meio, um serzinho em construção.

Tentar explicar que não pode sem dizer não; que a gaveta prende o dedo; o forno queima a mão; se cair do banquinho faz dodói; lugar de criança não é dentro da geladeira; a roupa do cesto é pra ser lavada e não espalhada pela casa; a roupa que a Mamãe dobrou estava limpa e era pra ser guardada, não arrastada pelo chão; almofada e sofá não são papéis pra serem riscados, nem a cadeira, nem a parede… sempre transformando o ensinamento em um momento leve e de aprendizado, toma um tempo que eu nem achava que tivesse. E não pode ser tirado do tempo dedicado as historinhas e brincadeiras, aos artesanatos que fazemos juntas, as danças e musiquinhas inventadas, a prainha ou piscininha do final de dia, a bagunça do banho com desenhos no box e penteados malucos com shampoo no cabelo, nem da massagem pós-banho que “relaxa, Mamãe”. Não, não pode. Esse tempo é sagrado. Ele tem prazo e vai acabar um dia, então tento não abrir mão dele.

Mas pra isso trabalho nas madrugadas, quando todos dormem. Reviso o que foi feito e o que ainda tenho por fazer. Sinto saudades e dou aquela passada na caminha de Valentina pra dizer que a amo, mesmo sabendo que ela já está dormindo profundamente e não vai responder. Olho pro meu marido que também já descansa e dou um sorriso de tranquilidade por tê-lo ali, do meu lado. Meu companheiro. E penso em tudo que não consegui fazer, no que ficou pro dia seguinte que vai começar cedo, nas pessoas com quem não consegui falar… ah, essa culpa de quem sempre acha que poderia ter feito mais. Eu tento não dar tanta importância a ela. Mas, não vou negar, ela está sempre ali de plantão.

As vezes perco o humor e a tranquilidade que sempre tive, apenas por estar cansada. Cansada não, exausta. Mas basta um sorriso ou um abraço. Um olhar de cumplicidade. Uma palavrinha doce ou uma nova descoberta e tudo passa a valer a pena. E as últimas imagens que coloco na mente antes de finalmente adormecer são as dos momentos de riso fácil em família, das pequenas conquistas, do amor transformado em brincadeira. E é isso que rejuvenesce minha alma. Energiza meu espírito e me torna mais forte e mais feliz.

Hoje eu quase não uso salto alto, mas equilibro muito mais do que uma bola vermelha. Eu não tenho muito tempo para maquiagem ou unha impecavelmente feita. Tenho mais rugas e cabelos brancos persistentes. Continuo vaidosa, gosto de me cuidar, mas assumo que as vezes não dá tempo e tudo bem. Segue o jogo. Tenho um corpo mais saudável, mas também mais afetado pelos efeitos do tempo. Menos horas de sono e mais horas de uma alegria simples e verdadeira que fazem o coração vibrar e a alma ficar mais leve. Tiro selfies de cara lavada assim que saio da cama, fazendo caretas, e gosto delas pois me reconheço ali. Estou feliz. Estamos. Ok, muitas vezes uso filtros nas fotos pra melhorar minha pele cansada. É pecado? Não, não é.

E percebo que essa é a maior prova de que o tempo que eu insisto em dizer que não tenho tem passado e deixado marcas em mim. Com uma generosidade tamanha que eu também não sabia que podia existir.

Mommy Cookie Monster e Valentina Elmo em uma manhã qualquer.

Mamãe Cookie Monster e Valentina Elmo sendo felizes em uma manhã qualquer.

4 thoughts on “As doces marcas do tempo que passa

  1. Jhill diz:

    q lindo prima! Coincidentemente escrevi sobre isso hoje! Das culpas, tempo q voa,filhos q amamos, coisas q deixamos de fazer e ser ,para ser mãe , mãe sempre em primeiro lugar!! o resto a gente faz assim, na madrugada, na folga, como for e onde for, desde que não tome deles o nosso tempo! Beijos em vc querida!

  2. Gisela diz:

    Maravilhoso seu texto. Verdadeiro. Fiquei lendo e imaginando seu dia a dia. Hoje mesmo falavamos ( eu e a Jhill) sobre ser mae e dona de casa em periodo integral e sermos realizadas com isso. Voce consegue isso e continua atuando na sua profissao que com certeza deve ser importante para voce.Cada um escolhe seu caminho e como disse pra Jhill…o que importa e ser feliz e se realizar com e como somos.Parabens Ritinha. Seja muiiito feliz! Beijos!

    • criarsemmedo diz:

      Você disse tudo. O que importa é ser feliz. E importa muito, pois só assim faremos quem está ao nosso redor feliz tbm. Que sejamos felizes. Beijos e obrigada pelo carinho de sempre. Mesmo distantes, sempre presentes. Pq aprendemos que é possível ser assim tbm. Bjs, Rita

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