Não é só sobre meninas ou meninos. É sobre pessoas

Por Rita Durigan

Quando recebi o Troféu Mulher Imprensa, em 2013, grávida de 8 meses da Valentina, agradeci e declarei que não era de parar para pensar se um homem ganharia mais do que eu. Ou se eu jamais chegaria a algum cargo apenas por ser mulher. Que eu sempre foquei em mim e no que eu era capaz de fazer e que foi assim que cheguei até ali.

No mesmo palco, minutos depois, jornalistas como a Miriam Leitão também receberam seus troféus. Me lembro em especial do discurso dela, com quem fui falar no final. Uma das especialistas em economia que mais admiro desde sempre, Miriam baseou-se em dados para lembrar que existe sim um preconceito contra as mulheres enraizado em nossa sociedade. Que muitas ainda sofrem os mais diversos tipos de abuso todos os dias e que precisam de nossas vozes – capazes de atingir uma certa audiência – em suas defesas. Não exatamente com essas palavras, mas é essa mensagem que ficou ecoando em mim. Principalmente depois de ter lido, um ano mais tarde, o relato de Miriam sobre detalhes da tortura que ela sofreu no início da década de 70, grávida do primeiro filho.

É incontestável que incontáveis meninas e mulheres são violentadas física e emocionalmente todos os dias em todas as partes do mundo. Ao lado, ou as vezes dentro de nossas próprias casas e escritórios. Que mesmo sem perceber nos sentimos acuadas todos os dias: como presas mais fáceis de assaltantes nas ruas; como quem teme colocar em risco a carreira com a maternidade, ou a própria vida, para defender um ponto de vista de forma mais enfática; ou quem se questiona quão provocativo e perigoso pode ser o comprimento da saia ou o decote que pretende usar. Tudo isso é fato, eu sei. Mas muitas vezes sinto falta de equilíbrio nas lutas que travamos por um mundo mais justo e igualitário.   

O filme #DearDaddy, em que uma menina prestes a nascer faz um pedido ao pai mostrando como pequenas e corriqueiras atitudes refletem em nosso futuro, é, a meu ver, um bom começo para a discussão.

É lindo. Conecta pontos que no dia-a-dia podem parecer distantes demais para serem vistos como ação e reação. Confesso que me incomoda um pouco ver a menina/mulher colocada exclusivamente como vítima. Vejo o feminino renegado à condição de aceitação, sem direito ou poder para interferir na própria vida em momento algum. E acredito que precisamos ter cuidado ao reforçar mensagens assim – por mais que o intuito do filme seja libertar as mulheres de um machismo opressor.

Nossas meninas precisam de incentivos e exemplos para acreditar que elas podem e devem fazer suas escolhas. Que elas precisam tomar a rédea de suas próprias vidas e que isso não vai ser fácil. Não mesmo. Mas necessário.

Com o mesmo cuidado, também temos que olhar para nossos meninos como seres que carregam nos ombros a responsabilidade de serem fortes, incontestáveis, dominadores, certeiros. De somarem conquistas e transas, consentidas ou não. De provarem ‘quem manda aqui’ o tempo todo. Meninos prisioneiros de uma imagem que terão que honrar, mesmo que não gostem dela. Muitas vezes violentados em sua essência. Vítimas ocultas.  

Precisamos ajudar nossos filhos a fugirem dos esteriótipos que podem influenciar em seus caminhos e distanciá-los de suas essências e verdades, e de um mundo mais justo e mais igual.

A campanha criada pela publicitária e executiva Madonna Badger: “We are #WomenNotObjects” – “Somos #MulheresNãoObjeto”, em tradução livre -, tenta mudar um conceito que faz parte do imaginário social feminino e masculino. O filme https://youtu.be/5J31AT7viqo utiliza imagens reais de propagandas que transformam a mulher em objeto. Autora de campanhas como as de Calvin Klein que fizeram sucesso na década de 90, com Kate Moss e Mark Wahlberg, Madonna Badger decidiu dar um novo direcionamento ao seu trabalho. Ela fez em memória de suas três filhas, uma de 9 anos e duas gêmeas de sete anos, que morreram no Natal de 2011, com os avós – pais de Badger -, em um incêndio. E assumiu o compromisso de que sua agência Badger & Winters jamais vai tratar a mulher como um objeto.

Da mesma forma o texto “Pelos Direitos dos Meninos”, da pedagoga Sílvia Amélia de Araujo, nos mostra como nossos meninos são moldados culturalmente, ao longo de suas vidas, para se tornarem os homens que não queremos perto de nós. E que, muitas vezes, nem eles mesmos querem que existam. Mas não tiveram tempo de saber que não queriam porque, já na infância, ouviam frases como:

1. “Vira homem, moleque.”
2. “Menino não chora.”
3. “Isso é coisa de menina.”

Estas frases aparecem em reportagem dos portais Catraquinha / Catraca Livre e Buzzfeed, entre outras que devemos parar de dizer para os nossos meninos. E parar agora.

É urgente rever e reforçar alguns valores básicos na formação de nossas crianças como o respeito, o amor ao próximo e a si mesmo, a liberdade de ser e aceitar as diferenças. Se ensinarmos nossas meninas e nossos meninos estes princípios, de forma igual, teremos menos violência física e emocional entre as pessoas, não importa o gênero ou qualquer outra consideração que insista em nos colocar numa caixinha de iguais ou diferentes. De vítimas ou vilões. De bons ou de maus.  

Não é só sobre meninas ou meninos. É sobre pessoas.

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