Prazer, Valentina!

Por Rita Durigan

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Tarde no parque

Desde que Valentina deixou de frequentar o daycare – maternal infantil -, há alguns meses, e ficar todo o tempo comigo, a falta de um contato maior com outras crianças passou a ser questionada. Eu tento suprir isso brincando feito criança. Dando o máximo de atenção quando não estou trabalhando – trabalho de casa com comunicação, estratégias, planejamento, produção de conteúdo. E brincarmos juntas faz tão bem pra ela quanto pra mim.

Mas adulto não é criança. É adulto brincando de ser, o que também é bom. Mas criança precisa correr, pular e dividir espaço com quem também está tentando conquistar o seu – e tem mais energia que uma mãe de 38 anos. Com isso eu concordo.

Pra nossa sorte, perto de casa há parques e parquinhos sempre cheios – quando não está nevando, chovendo ou muuuuito frio. É uma verdadeira festa. Mas pra mim estava se tornando um momento de angústia e, as vezes, decepção. Porque eu já chegava querendo que ela fizesse todos os amigos do mundo. Queria quase que com menos de 3 anos ela saísse de lá com telefones trocados me pedindo pra marcar um novo encontro – mães as vezes são meio doidas, eu sei (risos).

Bastava uma criança olhar pra ela e eu já começava: filha, se apresenta; diz seu nome; filha, que legal, um(a) amiguinho(a) novo. E por ai vai… E normalmente ela saia correndo pra outro brinquedo, bem longe daquela criança com a qual a Mamãe quis “forçar a amizade”, literalmente. E as vezes passava a interagir com outra criança, ou não. O fato é que ela sempre se divertia e eu, quase sempre, sofria.

Comecei a refletir sobre o meu comportamento. Porque eu tenho essa mania de teorizar tudo. Decidi observar. Percebi que ela faz amizades do jeito dela. Ela é capaz de descer o escorregador sorrindo para o coleguinha que está escorregando ao lado 2, 4, 8 vezes seguidas, e no momento seguinte sair correndo com outras crianças que estão atrás de um passarinho ou esquilo – que fogem desesperados, coitados. E imediatamente se forma um outro grupo com um novo foco de interesse. Assim como as vezes ela prefere se esquivar do brinquedo mais concorrido e brincar sozinha no balanço vazio, me chamando pra balançar ela “beeeem alto, Mamãe”. E que mal há nisso?

Observando aprendi coisas sobre as quais já tinha lido, mas não interiorizado: crianças na idade da minha filha não racionalizam tanto quanto os adultos, não se preocupam em criar vínculos – não é que não criam, apenas não se preocupam em criar – e não temem que aquela pessoa vá embora pra sempre e nunca mais a encontre, talvez por não saber que isso pode acontecer. Elas vivem o presente e é ele que importa.

Comecei a relaxar. Deixar rolar. Até que esta semana uma garotinha estendeu a mão enquanto Valentina tentava subir no escorregador pelo lado de escorregar, tentando ajudá-la. Da primeira vez Valentina não quis e pediu minha ajuda. Ajudei e não falei nada. Da segunda, não só aceitou a ajuda da garotinha como parou pra conversar com ela. Não interferi, só observei. No meio da conversa, muitos minutos depois, ouço um: “I’m Valentina” – Eu sou a Valentina, em português. Com uma mãozinha colocada sobre o peito mostrando que ela era ela e uma chacoalhadinha de cabeça, consentindo o que estava dizendo. Elas se deram as mãos e passaram o resto do tempo brincando, sorrindo, correndo, interagindo com outras crianças, mas sempre juntas. Só observei. A avó então chamou a garotinha para ir embora e elas apenas disseram: bye bye, acenando as mãozinhas, com toda leveza de uma criança. Pensei em perguntar algo, fazer contato, mas decidi que não invadiria o espaço da minha filha. Não naquela situação em que ela não corria nenhum risco e que tudo aconteceu sob nossos olhares atentos. O meu e o da avó, que também não interferiu.

Não sei se elas vão se ver novamente. Se a garotinha é nossa vizinha ou uma turista que passou por ali apenas naquele dia. Não tirei fotos porque estava de fato observando, com o celular esquecido no bolso. Mas sei que naquelas poucas horas elas foram felizes juntas. Sorriram, correram, pularam. E que isso acalmou meu coração. Porque eu tenho essa mania de querer racionalizar tudo. Mas amor e amizade nem sempre são racionais. Maternidade também não.

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