Quando a lei mais forte é a do amor

por Rita Durigan

Juntas há 7 anos e casadas há 5, em um dos primeiros casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo no Brasil, Adelina Estrella e Juliana Patera são mães dos gêmeos Bia e Chico, que completam 1 ano em novembro. Adelina deu à luz em São Paulo. E juntas sairam da maternidade com os filhos, a certidão de nascimento atestando a maternidade das duas e mais uma batalha vencida na luta pela garantia dos direitos legais para essa família que inclui cachorro, contas pra pagar, finais de semana na praia, choros, risos, medos, anseios, mesa cheia nos almoços de domingo, sonhos, planos e muito amor.

Na entrevista abaixo elas contam um pouco da experiência de construir uma família em meio a tantas leis, regras e preconceitos. E como o apoio e o amor da família, principalmente dos pais, de amigos e de pessoas que vão embarcando nessa aventura, fazem toda a diferença nessa história.

É preciso dizer que estamos muitos felizes por essa entrevista, pois acreditamos que Criar com asas é muito mais do que criar nossos filhos para serem livres. É também criar um mundo onde eles possam voar em liberdade.

Obrigada, Adelina e Juliana. E parabéns pela família linda!

Quando decidiram ter um filho?

Acho que era uma vontade das duas desde o início. A gente queria ter uma família grande, com crianças, cachorros, avós, irmãos e sobrinhos.

Quais as principais dificuldades que encontraram a partir daí?

De sermos amparadas pela lei. Fomos um dos primeiros casamentos civis homoafetivos do País. E conseguimos ser um dos primeiros casos a receber as certidões de nascidos vivos com o nome das duas mães na maternidade. Desde o início da inseminação entramos com um processo de reconhecimento legal. Contratamos um time incrível da advogada Juliana Maggi, representante dos direitos LGBT na OAB. Mesmo assim, o cartório do hospital se recusou a fazer o registro. Foi vergonhoso. Tivemos que apresentar uma expedição do juiz para que fossem obrigados a registrar as crianças.

De onde veio o maior apoio/incentivo?

Dos nossos pais. Com os anos, as famílias ficaram muito amigas e se tornaram uma só. Nós duas somos filhas de casais não divorciados – e não temos nada contra quem é. Mas eles são uma inspiração diária pra gente. Nos dias bons e, principalmente, nos difíceis.

Quando descobriram que esperavam gêmeos e como foi essa descoberta?

Foi um puta susto! (risos). A inseminação foi um sucesso total. Na 1ª tentativa já deu certo. Deu mais do que certo. O exame de sangue tava super alto e o Google deu a dica de que poderiam ser gêmeos. A confirmação veio no primeiro ultrassom. A gente sonhava tanto com um filho que não tinha como não ficarmos felizes. Muito felizes e muito assustadas com tudo o que viria pela frente. E olha que não fazíamos nem ideia ainda.

Pensam em ter mais?

O bom de ter vindo dois ao mesmo tempo é que podemos ‘fechar a fábrica’ por enquanto. Nosso plano é adotar quando as nossas crianças não forem mais crianças. A princípio, uma adoção. Mas se vierem dois de novo e tivermos condições, por que não?

Quais os principais medos das futuras Mamães com o nascimento se aproximando?

De nascerem bem, com saúde. Depois, das noites de cólica, da falta de prática, da hora do banho, de não fazer a coisa certa… de tudo. Tem ainda a questão de como criar uma criança, como educar da melhor maneira pra que se torne um cidadão consciente. No nosso caso, dois.

O que mudou na vida de vocês com o nascimeto das crianças?

Tudo mudou. Mas principalmente nossa rotina e a maneira como planejamos nossos dias. E mesmo planejando, tudo muda e sai de maneira diferente. Somos duas surfistas. Íamos pra praia todo santo final de semana. Agora é mais complicado. Só pra colocar todo mundo no carro levamos 2 horas. Jantares também são difíceis. A gente precisa de duas pessoas cuidando deles pra conseguir sair de casa. E mudou também a forma de nos relacionarmos com o mundo, sendo mais tolerantes e compreensivas.

Qual a reação das pessoas que conhecem a família de vocês pela primeira vez?

As pessoas se impressionam. Positivamente e negativamente. Por que ser gays e querer uma família grande? E por que não ser gays e ter uma família grande?

O que teria tornado essa jornada mais fácil?

As leis. Acabamos gastando mais dinheiro para ter nossos direitos reconhecidos do que com os custos geracionais e gestacionais das crianças.

E o que (ou quem) a tornou mais fácil?

Nossos pais, amigos, advogados e as pessoas que vão embarcando nessa aventura com a gente. Sem isso seria mil vezes mais difícil enfrentar tudo. Quando conseguimos decisões judiciais que podem impactar a vida de tantas outras pessoas, é motivo de orgulho pra todo mundo que está perto da gente.

Legalmente vocês tiveram dificuldades para cadastrar as crianças em plano de saúde, consultório médico…?

Não, porque conseguimos sair com elas registradas do hospital.

O que vocês dizem para casais que querem ter filhos e enfrentam dificuldades, sejam elas quais forem?

Cada gota de suor vale a pena. É difícil. É complicado. Quando você consegue, continua sendo difícil e complicado. Mas é o amor mais incrível que uma pessoa pode sentir.

Se pudessem mudar uma única coisa no mundo que vão deixar pros seus filhos, o que seria?

O respeito às diferenças de cada um. Estamos vivendo uma era de intolerência generalizada. No Brasil e no mundo. É assustador.

Tem uma música que representa a história de vocês?

Vale ser brega? “Make you feel my love”, da Adele.

adelina_chico_bia_ju

Adelina com o Chico e Juliana com a Bia. (Arquivo pessoal)

 

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