No protagonismo da vida, somos responsáveis pelas atitudes de nossos personagens

por Rita Durigan

Sempre que uma denúncia de assédio vem à tona, como a da figurinista Su Tonani, 28 anos, que declarou que por vários meses foi assediada pelo ator José Mayer, dentro da Rede Globo – local de trabalho dos dois – e, inclusive, na frente de outras pessoas que se calaram (entenda o caso no blog #Agoraéquesãoelas), o coração de uma mãe sofre. Principalmente se ela tem uma filha. Sofre porque ela já passou por algo semelhante, tem amigas ou familiares que passaram, e sabe a dor e o transtorno da insegurança de uma mulher – às vezes só uma menina – em situações assim.

O fato é que, como pais, cuidadores e educadores, precisamos preparar nossas crianças para um mundo com mais respeito ao próximo e a si mesmo. Um mundo onde gêneros e cargos não definam quem decide o que pode ou não acontecer. Um mundo onde, de fato, “minha liberdade termine onde começa a do outro”. E a sua também.

Não é fácil. Quantas vezes não insistimos com nossos pequenos: “é só um abraço”, “dá um beijo nele/a”… e por ai vai. Tenho questionado muito essa minha postura de mãe, que liga quase no automático. Até onde tenho o direito de decidir quais abraços e beijos minha filha tem que receber ou oferecer, mesmo que visivelmente incomodada com a situação?! Não deveria eu ensinar na prática que manifestações de carinho devem ser livres, espontâneas e são válidas apenas quando são boas para ambas as partes? Que temos o direito de dizer não e o dever de respeitar o não que vem do outro? Será que faz sentido dizer tudo isso algumas vezes, mas não agir na defesa do direito e da vontade de nossas crianças, principalmente quando estamos em meio a outras pessoas?

Não deveria eu deixar que apenas manifestações espontâneas como os abraços apertados e beijos estalados que nos damos todos os dias definissem o conceito de demonstração de amor que ela já tem dentro dela?

Não é fácil. Mas precisamos começar a desconstruir algumas regras que trazemos dentro da gente relacionadas ao comportamento ideal e suas amarras. 

Por que pessoas que teriam assistido a humilhação de Su Tonani não reagiram? E queria deixar claro aqui que me sinto confortável pra dizer que o assédio aconteceu sim, mesmo sem ouvir pessoalmente os envolvidos, uma vez que o ator declarou que quem fez isso foi o personagem. Opa!!! Ela estava em cena? Era combinado entre as partes envolvidas? Ensaiado? Não. Não era. Então, me desculpe, José Mayer. Você errou feio. Esse personagem é você.

E sabe porque nos calamos diante de situações assim? Porque achamos normal tantas coisas que vivenciamos todos os dias? Porque somos criados pra isso. Somos fruto de um emaranhado de regras e condições, de pré-conceitos e imposições, que nos amarram e impedem de gritar. Pior, muitas vezes nos impedem de enxergar o que está acontecendo diante de nossos olhos.

Nossas crianças, meninas e meninos, precisam entender que o respeito é a base de qualquer convivência livre. E nós somos responsáveis por dar essa compreensão de liberdade a eles.

Eu não sei a receita, mas todos os dias paro pra pensar sobre o assunto. Pergunto. Discuto. Ouço. Discordo – às vezes de mim mesma. Venho gritar aqui pra ver se alguém me ajuda a encontrar novos caminhos.

Se a gente não começar a mudar, daqui a alguns anos serão nossos filhos protagonizando cenas de assédio e violência sem sequer terem decidido se gostariam de estar no palco, na mira de personagens brutais do mundo real. Ou daqui a alguns dias, quem sabe?! Eu só desejo um mundo de paz pra minha, pros seus e pra todos nós. Só isso! Mas preciso fazer a minha parte.

 

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Na foto eu estou no DUMBO, Brooklyn, de frente pra Manhattan. Mas ela representa essa liberdade de nos abrirmos pro novo, essa liberdade que tanto buscamos e a compreensão de que precisamos abraçar o mundo e seus problemas, fazendo algo pra transformá-lo em um lugar melhor. Rita.

 

One thought on “No protagonismo da vida, somos responsáveis pelas atitudes de nossos personagens

  1. Gloria diz:

    Assédio não precisa de meses , apenas uma frase , uma vez só.
    E o argumento dos anos 60 eram assim , só na cabeça dele.
    Enfim, já já estará na novelinha, protagonizando o sujeito (ex) charmoso que canta as meninas , ou não? Vamos aguardar .

    Seu texto , abrangendo outros limites , muito adequado ao nosso mundinho. Excelente!

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