Desliga a TV e se liga nas mudanças que vão acontecer

por Rita Durigan

É sempre muito delicado falar sobre maternidade, o que fazer e o que não, como fazer. Até porque, cada casa é uma casa e tem sua realidade, sua rotina, e pessoas com seus tempos e diferenças. Então, que fique claro que esse não é um post de julgamento e condenação aos pais que fazem diferente. Mas é a experiência que estou vivendo e que tem sido muito clara pra mim. E serve sim para encorajar outras mães e pais que  desejam tirar os filhos tanto tempo da frente das telas.

Aliás, experiência mesmo. Há vários meses – talvez mais de um ano – eu percebo que Valentina repete demais comportamentos de personagens de desenhos ou filmes que ela gosta de assistir. E, em geral, são os comportamentos negativos. Eu já havia reduzido bastante o “consumo” dela de tudo que vem das telas há alguns meses. Nas férias, no Brasil, essa tentativa desandou.

Voltando pra casa, nos EUA, onde o Netflix pra crianças comia solto todas as vezes que eu precisava trabalhar e estava com ela – eu trabalho a maior parte do tempo de casa e ela só vai pra escola segundas, terças e quartas de manhã, ou seja, todas as tardes de segunda a quarta e quintas e sextas o dia todo ela está comigo. Finais de semana a gente sai muito e não sobra tanto tempo pra TV.

Mas durante a semana, há 3 semanas, eu praticamente cortei TV e celular em casa – o celular eu já tinha eliminado 90%. Mas sem dizer que ela está proibida de ver. Quando ela pede – todos os dias ainda -, eu convido pra brincar de algo que ela gosta muito; pra lermos juntas; sugiro brincar de tintas e massinhas; cantar e tocar os instrumentos que ela ama; jogamos os tantos jogos que ela tem; tenho marcado muitos encontros com crianças pra ela passar a tarde brincando, pulando, cantando e dançando, criando, sendo criança e vivendo a infância. Isso ajuda muito a desligar da TV. Lembre-se, estamos no inverno de NY e não tem dado pra irmos aos parques como amamos fazer. Aí vale liberar pra pular no sofá, na cama, rolar no chão e se divertir. Mexer o corpo, deixar a mente livre.

Às vezes eu desço pra brinquedoteca do prédio onde ela fica brincando com as crianças que sempre estão por lá e eu tento me concentrar no trabalho, em uma mesinha infantil, entre crianças gritando, brincando, pulando, mas em um ambiente gostoso e importante pra ela: o do brincar e se relacionar com outras crianças. Como é uma sala fechada e de onde eu fico tem visão para o que ela está fazendo em qualquer parte do ambiente, consigo trabalhar tranquila, sem interferir nas brincadeiras – só se precisar. Em geral tento me organizar pra fazer tudo nas manhãs de segundas a quartas e não é tão simples assim. Não mesmo, acredite.

Dá um trabalho danado mudar um hábito que em geral é usado pra nos “desafogar” do cuidar dos filhos. E me foi muito útil também, confesso. Exige tempo e uma presença física que muitos pais não têm porque a vida nem sempre é como a gente gostaria. Mas a gente pode tentar colocá-la mais próxima do que acreditamos. E, no meu caso, tem feito muito bem.

De fato, o comportamento dela mudou muito e profundamente. E o meu também. Estamos muito, mas muito mais conectadas; diria que 95% do comportamento de manhas e birras acabou; ela tem criado muito mais coisas, desenhado muito mais, inventado muito mais brincadeiras, se exercitado e consequentemente comido mais e melhor; chegamos ao final do dia muito mais cansadas e muito menos estressadas; conversamos mais; ela tem ido pra cama mais cedo, por volta das 20h –  e eu, sempre que posso, vou logo em seguida. Ela, que acordava sempre às 6am, tem acordado 7am e muito mais disposta – e nós também. 😉 E com a mente mais leve eu tenho voltado a produzir mais, entrando no meu ritmo. Claro, não sou super heroína e não consigo deixar tudo impecável. Um dia fica a roupa por guardar, no outro a casa que gostaria de ter limpado, um texto que não consegui escrever, o livro que estou demorando mais pra terminar de ler… mas a mente e o coração estão mais leves.

A TV não é proibida. Ela acaba vendo em outros lugares, outras situações, na casa de amigos, e vai ver em casa também, muuuito de vez em quando no que depender de mim, a partir de agora. Mas eu resolvi desligar nossas vidas da TV e das outras telas o máximo possível, que é pra se ligar mais na vida real e na infância dessa criança que eu tenho a alegria de conviver todos os dias, mas que vai passar. E quando passar, a ponte entre nós será sólida e a infância terá sido muito bem vivida, com memórias que nem o tempo vai apagar. E ai terei tempo apenas para recordar o que hoje eu posso viver.

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