A dor de perder um filho, mesmo quando ainda é feto

96BB544C-09E3-466D-A56F-662FE510F106por Rita Durigan

Antes da Valentina, perdi dois. O primeiro, num sangramento intenso 3 dias depois de descobrir que estava grávida, e que nosso sonho, meu e do meu marido, estava se realizando. Entrei pra estatística do “é mais comum do que a gente pensa. A maioria das mulheres vai passar por isso algumas vezes na vida e nem vai saber, vai achar que a menstruação atrasou e pronto. Foco no próximo.

É comum, mas a dor é minha. O filho era meu (nosso, porque era um sonho a dois) e eu amei desde o segundo em que soube que ele existia – antes até, quando passei a desejá-lo e gerá-lo no meu coração. Ser comum não minimiza a minha dor. Pedir pra focar no próximo é pedir pra enterrar às pressas um ser do qual estou tentando entender porque eu tenho que me despedir dele assim, tão de repente e tão fora de tudo o que estaria por vir. 

Sobre a perda desse filho, eu omiti das pessoas, omiti no trabalho. Disse que tive um sangramento e precisava de repouso e ponto. Porque eu não queria falar, estava triste e fraca. Não queria dar a notícia ruim sobre a alegria que nem cheguei comentar. Porque quando você trabalha, você tem medo de ser demitida, mesmo que nunca tenham dito isso pra você; e quando você se entristece por perder um bebê, você entra automaticamente pra estatística do “funcionária querendo engravidar.” Essa é a realidade da sociedade em que vivemos. Ainda. Infelizmente.

O segundo foi numa gravidez ectópica. Se você não sabe o que é isso, eu também não sabia até entrar no pronto socorro e descobrir: é quando o embrião se aloja fora do útero. Em geral, na trompa. Foi meu caso. Uma de minhas trompas estourou e foi retirada com o/a segundo/a filho/a que não pari. Porque o embrião começou a crescer e a trompa não suporta, não tem tamanho e elasticidade pra isso. Eu poderia ter morrido e isso não soou tão forte pra mim quanto ter deixado na mesa de cirurgia mais um pedaço de mim, mais um filho que não ia conhecer, e 50% das minhas chances de ter um filho um dia. E eu chorei, muito. Chorei a dor, as perdas, o medo, a vergonha – sim, eu tive -, e a tristeza. Incompreendida, muitas vezes, porque era uma dor muito íntima. 

De novo entrei pras estatísticas: “é mais comum do que você pensa.” De fato soube de pessoas que tiveram gravidez ectópica e que eu nem imaginava. Porque não é algo que a gente tem vontade de falar. Não sempre, ou sem propósito.

E eu também omiti. Disse que retirei um cisto – mesmo entregando na empresa o atestado real e sabendo que quem quisesse encontraria o código na internet e saberia o que de fato me levou pro centro cirúrgico. Mesmo com o coração dilacerado por estar de certa forma reduzindo um filho a um pedaço de algo que precisou ser retirado de mim. Eu omiti porque doeu demais. Porque eu não tinha forças nem estava pronta pra falar. Pouquíssimas pessoas – mesmo – souberam a verdade.

Muita gente ainda não sabe. Ou não sabia até agora.

Meu marido foi forte pra que as atenções se mantessem em mim, mesmo tendo que administrar as próprias perdas, a própria dor e o próprio medo, principalmente todas as vezes que soube que eu estava em risco também. Juntos vimos nosso sonho ir embora duas vezes, e ele confiou desde sempre que “Papai do Céu estava preparando algo muito especial pra gente”. Estava mesmo, mas minha fragilidade naquele momento me confundia em relação a isso.

E se hoje eu escrevo esse texto é porque toda vez que sei que alguém perdeu um bebê eu tenho vontade de falar, de contar, de abraçar e de dizer que eu sei do tamanho dessa dor; de quão difícil é ver que as pessoas não compreendem o sentimento de perda de um bebê que ninguém conheceu. Mas que a gente, de alguma forma, conheceu, sentiu, amou. Vontade de dizer que tudo vai ficar bem, porque as coisas acabam ficando bem, se a gente deixar, se a gente cuidar pra que fiquem. Mas que eu sei que a dor é legítima e merece respeito. E que dói tão forte e profundamente que as vezes precisamos de ajuda. Quando eu senti que não ia suportar sozinha, procurei uma terapeuta que me ajudou a colocar o coração no lugar. O tempo – Ah o tempo! – vai amenizar. E na hora certa a criança vai chegar. Da forma que for, se for mesmo sua vontade. Eu sempre acredito nisso. Mas quando estamos vivendo, eu sei, é mais difícil acreditar.

Se hoje alguém me perguntar se eu esconderia a gravidez até o terceiro mês, quando as chances de perder a criança diminuem, eu diria que não sei. Primeiro porque, mesmo com todos os motivos pra ter medo quando descobri minha terceira gravidez, a da Valentina, depois de passar por duas experiências tão difíceis e dolorosas, meu coração  estava tranquilo. Eu sabia que estava tudo bem, ao contrário das duas outras vezes. Eu sabia que era ela, que agora tudo daria certo, que ela nasceria pra mim. Simplesmente sabia. Mesmo assim, só contamos pra família quase no segundo mês. E anunciamos fora da família depois dos três meses.

Mas isso é muito pessoal. Se você falar e perder, você vai ter que contar e nem sempre a gente tem forças pra isso. Mas se você não tiver contado e perder, isso não muda a dor da perda e sua tristeza não vai ter explicação pra muita gente, você vai sofrer o ter que conter a dor. E, quer saber, a gente nunca deve entrar numa gravidez achando que vai dar errado. Então, siga seu coração e acredite. Viva cada momento e sensação. Essa é uma das mágicas da vida, não saber exatamente o que será do amanhã.

Naqueles dias sombrios e confusos, meu pai foi a fortaleza e o amigo que sempre é em nossas vidas. Minha mãe, que horas com seu silêncio, horas com sua tentativa de conforto, parecia querer tirar de mim toda a dor, foi a pessoa na qual despejei toda a minha angústia, minha agressividade defensiva, talvez porque eu soubesse que ali tudo que eu dissesse passaria e continuaria transbordando amor. Talvez porque nela eu reconhecesse o útero para o qual eu gostaria de retornar e repousar minha dor. E foi ela, minha mãe, que me disse uma das coisas mais lindas que ouvi ainda no hospital, esperando a definição pela retirada da minha trompa e do meu segundo filho que jamais nasceria: “Não importa o que aconteça daqui pra frente. Você já foi mãe. Você já sentiu o amor de mãe.”

Você tinha toda razão, minha Mãe. Um filho sempre transforma a gente, mesmo quando ele não nasce.

4 thoughts on “A dor de perder um filho, mesmo quando ainda é feto

  1. Luciana diz:

    Isso Rita! O sentimento existe e não é comum pra
    quem perdeu um filho que não nasceu no tempo esperado. Só o tempo pra acalmar o coração mas esquecer nunca.

  2. Taynara diz:

    Rita és sem dúvida uma excelente mãe, e agradeço imensamente cada palavra. Só quem passa pra entender essa dor. E sua mãe uma pessoa de extrema luz tinha toda razão quando te disse que “Não importa o que aconteça daqui pra frente. Você já foi mãe. Você já sentiu o amor de mãe.” E nossas mães neste momento são nosso por seguro e nossos pais são e sempre serão nossos eternos amigos, que sabe o momento e a palavra exata a nos dizer neste período tão doloroso de nossas vidas. Existe por mais difícil q seja acontecimentos em nossas vidas q servem de amadurecimento. Fique com Deus e nunca deixe de postar suas palavras são tocantes, sinceras e acalmam nossos corações.

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