Entre o branco e o preto

Por Paty Juliani

Um dia eu quis ser justiceira.

Estudei direito porque tinha o senso de justiça dentro de mim. Sonhava em ser promotora de justiça. O próprio nome da profissão já dizia tudo! Nunca desejei bater o martelo, ter a última palavra, mas denunciar, dar voz ao que era injusto e ilícito. Para isso, eu estudava. Estudava muito!

Enquanto não passava no concurso e me especializava em “tutela dos interesses difusos e coletivos” (meu desejo de justiça), fui trabalhar em um escritório no centro de São Paulo e dividia a sala com um advogado. Tentando compreender onde eu efetivamente estava e quem era ele, eu apenas observava. Comecei a achar aquele meu colega arrogante e presunçoso. Meu olhar não via qualidades ali. Mas tínhamos um elo em comum: a música! Foi ela quem, aos poucos, foi nos aproximando.

Ele, diferentemente de todos ali, trabalhava e fazia petições, sem parar, ouvindo rock internacional. Uma playlist melhor do que a outra. Aos poucos, a conversa chegou nesse ponto.

Ele era um cara completamente oposto de mim: tinha posições firmes e irredutíveis para tudo. Era certo ou errado, branco ou preto, direita ou esquerda. Aquilo me irritava e me tirava do eixo. Mas a música é forte e tem um poder indescritível.

Comecei, aos poucos, perguntando se em seus playlists existiam músicas brasileiras. No começo era: não! Abaixava a cabeça e voltava ao trabalho. Mas eu não desistia.

Um dia, pedi pra ele ouvir, só uma vez, uma música do Chico Buarque. Pedi que ele prestasse atenção em sua letra. Ali, vendo ele ouvir a música e seu semblante se transformar, meu olhar mudou. Ele não parecia mais tão arrogante e presunçoso. Parecia mais humano.

A partir daquele dia, ele abriu a escuta. Queria ouvir as músicas que eu trazia. Me apresentava novas músicas. Ouvia com graça eu dizer que entre o preto e o branco existem inúmeras cores. Que entre o certo e o errado, há um mundo. E que entre direita e esquerda, há esperança.

Ficamos amigos!

Continuamos absurdamente diferentes e, todas as vezes que ele vinha com suas verdades absolutas, eu começava a cantar “Meu Amigo Pedro” do Raul Seixas e ele começava a sorrir.

Tomamos muitas cervejas juntos. Discordamos muito. E dividimos muitas músicas.

Ele ficou amigo do meu marido (que era namorado na época). Ele esteve no meu casamento.

Mudamos de cidade. Cada um foi para um lado.

Não me tornei justiceira profissional. Tive filhas. Decidi deixar um emprego estável e uma carreira. Estava me refazendo nesse processo quando ele me mandou uma mensagem. Fiquei com medo de seu julgamento pois estava sofrendo com isso de todos os lados. Ele me ouviu. Disse que me entendia, me respeitava e me admirava. Disse palavras que eu precisava ouvir naquele momento. E eu me lembrei porque ele era meu amigo.

Mais alguns anos se passaram.

Hoje ele é pai, tem uma linda esposa, tem seu próprio escritório, vota em partidos de direita e provavelmente é do diretório do PSDB (se não for, deveria ser). Eu, sou mãe por opção, professora e artista por vocação e justiceira por nascimento. Continuo tentando olhar para além do meu lindo e privilegiado quintal, votando em esquerda e tentando quebrar a bolha que insiste em me fechar.

Ando hoje pelas ruas e vejo pessoas com camisetas estampadas de horror. Vejo bandeiras e adesivos que não são vermelhos. Vejo crianças na escola brincando de armas. Ouço professoras, mães e mulheres dizendo que estão acuadas. Desenvolvo trabalho com uma professora, música, mãe, negra, que chora me contando os horrores que já está ouvindo e que teme pelo futuro de sua filha. Olho para minhas filhas e vejo o tamanho de minha responsabilidade.

Ontem, ao ver o Roger Waters cantando a música que fez em defesa da liberdade, contra o fascismo que matou seu pai, trazendo o nome do Brasil nesse contexto, eu me lembrei do meu amigo. Me lembrei que apesar, e além das nossas diferenças, hoje estamos do mesmo lado.

Mais uma vez a música como elo gritando que há algo maior dentro dessas escolhas e que sim, há esperança entre direita e esquerda.

Eu sei como deve estar sendo difícil pra você, meu amigo Francisco Bueno (Chico, como o cantor), mas você me faz acreditar. Não é apenas política e sabemos disso. Há algo maior em tudo isso.

O ser humano não se torna, ele se revela. E você, mais uma vez se revelou um homem responsável, íntegro, inteligente e, acima de tudo, corajoso.

Te agradeço publicamente para mostrar que há esperança. Que valores humanos sempre estarão acima de quaisquer valores ideológicos. Que o ódio é a cegueira dos justos.

A escrita me liberta e por isso escrevo. E a liberdade é algo que não podemos negociar.

Sua mulher e seu filho tem sorte.

Eu tenho sorte.

Que todos nós, possamos também ter, pois esperança é a única coisa que nos resta.

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