Um domingo desses qualquer ou a vida como ela é

Por Paty Juliani

“Por que o Sol saiu
Por que seu dente caiu
Por que essa flor se abriu
Por que iremos viajar no verão
Por que aqui o mundo não será cão…”

– Precisamos parar.
– Sim, precisamos.
O ano mal começou e já vem o alerta. Era preciso pausar.
O entra e sai do quarto, a luz que acende e apaga já anunciam que meu tempo se esgotou.
– Vamos tomar café, mamãe.
– Levanta que já está tarde.
Está difícil abrir os olhos e meus ombros doem. Fazer movimentos com a cabeça é impossível.
Primeiro final de semana do ano em casa. Faxina, arrumação, roupa, comida. Nós e elas. Sábado de casa. Em casa. Para a casa.
Mas o domingo acorda com o sol, com os gritos e sorrisos.
Coloco o tênis e peço para elas pegarem as bicicletas.
– Vamos para o parque.
– Mas eu quero patins.
– Tudo bem, meu amor. Pega os dois.
Partimos!
Eu, com minha dor. Elas, com patins e bicicleta. E ele, nos auxiliando.
– Por que está tão difícil para ela soltar do freio?
– Porque ela tem medo.
Sim, medo!
Quando ela era bem pequena, fui ajuda-la a andar de bicicleta. Empurrei achando que estava tudo bem. A bicicleta tombou. Eu quase morri. E ela, nunca mais soltou do freio.
– Eu quero patins e não vou esperar ninguém.
Enquanto uma se apoia na segurança, a outra se arrisca no desejo.
Fico no meio. Hora corro. Hora volto.
Penso que as dores são pesos, assim como os freios são amuletos. Precisamos deles para nos ancorar.
– Confie. Você não vai cair. E, se isso acontecer, você vai se levantar e voltar. Medo a gente enfrenta. Sempre!
– E você, volte aqui. Não suma assim. Não corra tão rápido.
Um apertar e afrouxar constante.
– Agora eu quero a bicicleta.
E some na bicicleta. Corre e sente o vento bater, enquanto a outra enfrenta, devagarzinho, sua batalha.
– Você viu? Nas pedras e na areia, onde havia mais dificuldade, ela foi melhor.
Eu não tinha visto. Ele sim.
Fiquei feliz.
– Pronto! Hora de ir para casa.
– Quero subir na árvore.
– Eu também.
Parada para comprar carne.
Nós, na cozinha. Elas, ao redor.
– Queremos arroz também. As bonecas estão com fome.
– O que vocês estão fazendo?
– Arroz, carne e vinagrete.
– Vamos fazer também.
E lá vão elas cozinhar. Avental, panelas e arroz mexendo.
– Vamos viajar? Nós quatro. Para ficarmos assim, grudados.
– Ficamos aqui. Sem gastos.
Recebo um abraço que vem apertado. Sinto a dor me tomar. Choro!
– Não chora mamãe, vai passar.
– Pega pomada.
– Deixa eu fazer massagem.
– Só preciso de um banho. Aliás, todos precisamos. Depois o filme de família, não?
– Quero assistir Pantera Negra, Mulher Maravilha e Star Wars. Pode?
Poder, não pode.
Olho para a pequena, que reprova as escolhas com a cabeça.
– Você pode ficar brincando na hora do filme. Eu fico com vocês duas.
Um apertar e afrouxar constante…
– Vamos começar por Star Wars.
– Eu nunca assisti.
– Eu já, mas não lembro.
De um lado, uma gruda na tela. E de outro, alguém desenha e tenta escrever palavras.
– Mamãe, olha o que escrevi?
– Mamãe, não entendi…ela é a rainha mas o vice rei é mal?
– Ele traiu ela, meu amor.
– Por que eles estão em guerra?
– Pelo motivo que eles sempre entram em guerra: disputa de dinheiro.
– E por que ele traiu ela?
– Por disputa de poder. É sempre assim, meu amor.
– Mamãe, escrevi certo?
– Estou gostando mas continuo não entendendo o motivo da guerra. Mas já entendi quem é o bem e o mau.
– Que bom, meu amor. Já basta.
– Mamãe, olha o meu desenho.
Desligo feliz por ter relembrado. Pelo filme escolhido. E pelos diálogos.
– Não gostei. Não gosto de filmes reais. Prefiro desenho.
– Mas de domingo é filme de família e pode.
– Gostei! Nunca quis assistir, mas gostei. Boa escolha, filha.
Hora de dormir. Pego o livro escolhido na biblioteca.
– Não estou entendendo nada desse rei Arthur.
– A mamãe já vai ler o seu da bruxa.
Equilíbrio? O que é isso mesmo?
– Dormiram?
– Sim!
– Vamos também. Amanhã é segunda.
– E daí que amanhã é segunda?
– Tem razão. E daí?
– Descansa um pouco para a dor passar enquanto eu vejo como foram os jogos. Fecho os olhos, feliz! Amanhã eu penso o que fazer com meus ombros. Amanhã…

“…Por sorte somos todos os titãs
E a vida assim irá sarar, virar sã
E agora eu vivo em paz…”

 

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