Vivemos esperando

por Rita Durigan

Começou a primavera aqui nos Estados Unidos. Ontem, 20 de março, dia em que no Brasil começou o Outono. Com invernos longos e dias muito frios, o Spring (Primavera, em inglês) costuma ser muito aguardado como prenúncio de dias melhores.  Mas porque esperamos tanto pelo que está por vir? Porque temos essa mania de viver na ansiedade como se só o futuro pudesse nos trazer felicidade?

Eu gosto do inverno. De algumas coisas. Porque tem uma que eu não gosto mesmo: o escurecer tão cedo. Tem uma época que 16h30 vira noite, ai me derruba. Minha energia acaba e eu me arrasto pra fazer tudo o que falta até chegar de fato a hora da noite.

Mas tem coisa boa, como fazer um bolinho e tomar com um chazinho quente no meio da tarde. Os lindos pores do Sol (como o da foto ali em cima, tirada num dia bem frio). E a neve que ainda me emociona, mesmo depois de 6 invernos vividos nos EUA. Gosto de vê-la cair deixando tudo branquinho, mesmo que depois as ruas e calçadas fiquem cheias, sujas e escorregadias; mesmo sabendo que pode haver dificuldade de locomoção; ou que por alguns dias vai parecer que estamos dentro de um congelador… Nada me impede de apreciar a neve que cai. De brincar nela com a minha filha, entrando em contato com a natureza em uma estação que nem sempre dá para estar ao ar livre, o que pra gente é muito importante também.

Além disso, por nunca ter brincado com neve na minha infância vivida no Brasil, ela me permite ser criança de novo, descobrindo jeitos e sensações que eu nunca experimentei, como fazem as crianças. De novo, uma questão de se permitir.

Inverno aproveitado, chegou a Primavera. Sempre chega. E ouvir tanta gente contar os dias pra sua chegada esse ano me fez pensar sobre a ansiedade que deixamos fazer parte de nossas vidas, sempre. Eu mesma reclamo do frio, muitas vezes sem ter um motivo real pra isso.

Mergulhada num processo pessoal de minimizar a ansiedade e buscar a felicidade no presente – o que não tem sido nada fácil -, me dei conta de que não é a temperatura de fora que vai aquecer meu coração. Que não são as flores do jardim que vão colorir a vida que eu vejo. Que o Sol pode até me iluminar por fora, mas essa luz potente não vai entrar se eu não abrir a guarda e deixar que entre, se eu decidir me manter na escuridão interna.

Enquanto esperamos que o amanhã chegue com a felicidade embrulhada num pacote de presente, nossos filhos crescem, nossos pais envelhecem, nossa vida passa, e a gente deixa de viver o que está acontecendo agora. As experiências que não voltarão. Podemos até estar alimentando em nossas crianças essa mania de querer crescer que elas já têm, justamente por não terem noção ainda de que o tempo não volta. Podemos fazer parecer que o amanhã será sempre mais Primavera. Pode até ser que seja, mas nela não terá a neve branquinha pra ver cair e brincar agora, ou a sensação boa do aquecer de um chazinho quente que só posso viver se for já. Ops, e o já, já foi.

*Aliás, pra quem gosta de chá e não viu a Receita de Mãe de ontem, clique aqui

 

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