Não tenha medo de ter medo

por Rita Durigan

“Filha, ter medo é normal. Vão te dizer que não precisa – eu mesma já disse, desculpa!. Vão dizer que não há motivos pra tanto. Que você é forte. Precisa ser forte. Nem tudo é bem assim. O medo é seu, ou meu, do outro. É de quem o sente. É real. Legítimo, como todo sentimento que há em nós. Ele é necessário em todas as etapas de nossas vidas. Pode impedir uma criança de se jogar do alto, mesmo sem a racionalização do risco; pode impedir a gente de andar em cordas muito bambas; de nos jogarmos em ribanceiras; de entrarmos em grandes frias… E se você guardar ele só pra você, esconder do mundo, com medo de ter medo, ele pode se alimentar dele mesmo e crescer, invadir outras áreas que não o pertencem.

Você vai ser sempre estimulada a compartilhar a felicidade, os momentos bons, nunca os difíceis, nunca o medo. Não se importe tanto com o que diz a multidão. Felicidade naturalmente a gente compartilha, expressa, transborda. Ela brota de dentro pra fora e se é de verdade, contagia.

Medo a gente enfrenta (como também disse a Paty Juliani nesse post), mas não precisa ser na solidão. Porque o medo pode paralizar. Mas se tivermos alguém para nos dar as mãos, pra nos ajudar a olhar as perspectivas, ou pra dizer que o medo é comum, será mais fácil seguir e ele pode até nos fortalecer e deixar de ser.

Para encará-lo é preciso falar dele. Não pra todos, em qualquer lugar. Mas assumir que existe, olhar para ele, sem medo. Falar pra quem você confie de verdade. Pessoas que vão te ajudar. E falar. Dar o devido espaço para que ele vá saindo, assim, devagar. No seu tempo. Pelos motivos certos. Com o apoio das pessoas certas. Afinal, sentir medo é normal, lembra?

A Mamãe também tem medo, filha. Você sabe. Medo de virar estrelhinha e te deixar aqui. E quando você me pede que eu te espere ficar velhinha pra gente virar estrelinha juntinhas, você nem imagina como eu gostaria, meu amor. E isso tem me motivado a cada dia te ensinar algo novo, algo de valor, te dizer inúmeras vezes o quanto eu te amo, ressaltar suas qualidades, te ajudar a encontrar caminhos, te abraçar, te beijar, te olhar. Te permitir encontrar sua própria força. Porque esse medo não pode me paralizar. E pra torná-lo menor, cada vez mais, eu escrevo. Eu falei sobre ele com você, quando o assunto surgiu. Você sabe. Tento falar com pessoas que podem me ajudar. E assim, por ser presente e assumido, ele vai dando espaço aos impulsos de vida.

Como você, eu também tenho medo de tirar sangue, filha. Você também sabe disso. Tanto que nunca acreditei que seria capaz de levar filho pra exame. Até você nascer. Há mais de 5 anos, em todos os seus exames e vacinas, eu estive lá com você. E estarei enquanto você precisar. Porque o amor é maior que o medo. Porque eu sei que você confia em mim e que isso torna seu medo menor. É disso que estou falando, filha. O exame eu não consigo evitar. Mas eu compreendo seu medo. Eu o respeito. E por isso eu te dou a mão nesse momento, compartilho da sua angústia, respeito o que está sentindo e ajudo a tornar o peso menor. E por isso você acolhe e respeita o meu. Já me deu a mão também quando precisei tomar uma vacina pra que eu não tivesse medo. E é nessas horas que não negamos o medo que ele se torna pequeno. Diante das perspectivas da confiança, da segurança e do amor.

Juntas vamos entendendo que medo existe e pode ter várias formas, tamanhos e cores. Que medo deve ser assumido, colocado pra fora, e que ninguém tem o direito de dizer que nosso medo não tem razão de ser. Ele é sentido e pronto. E quando nos damos as mãos, o medo fica menor e mais fácil de superar. Pode até ir embora, quem sabe?! Mas se não for assim, tão rápido, tudo bem. A gente dá a mão de novo. Conversa de novo. E vai deixando ele menor, pequenininho, e vai seguindo, sem medo, nem mesmo de ter medo.”

Valentina e a Fearless Girl

Tem mais de um ano essa foto com a famosa escultura de bronze “Fearless Girl”, em Nova York. “A garota sem medo” foi criada como peça de publicidade para incentivar empresas a contratarem mais mulheres. Foi instalada inicialmente em frente ao Touro de Wall Street, símbolo de poder e do dinheiro. Gerou polêmica e não poderia ficar ali para sempre. No final de 2018 “Fearless Girl” ganhou endereço definitivo, em frente à bolsa de valores de NY. 

-Esse post começou a ser escrito há muito tempo. Começo de 2018, não sei. Virou rascunho, mas nunca foi esquecido. No último Dia Internacional das Mulheres, diante de tantos adjetivos jogados em frases que praticamente nos obrigam a sermos “fortes”, “guerreiras”, “invencíveis” e “destemidas” o tempo todo, senti que precisava finalizá-lo. 

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