Nós e a casa

por Paty Juliani

– Eu já te falei que a cozinha é o coração da casa?
Sim. Ele sabia que sim, mas queria reforçar. Essa é uma frase recorrente dele. Mas agora, ele a tinha proferido, depois que a apresentadora de um programa de culinária falou:
– A cozinha não é da dona da casa. A cozinha é da casa.
E eu achei interessante ele fazer essa relação.
Enquanto ela terminava de preparar o prato, atenciosamente acompanhada por ele deste outro lado da tela, tentei buscar o papel da cozinha na minha memória mais remota.
O cheiro do pão saindo quentinho do forno. As mulheres em volta da mesa conversando. A manteiga derretendo dentro dele.
A panelinha que tinha a marca exata da água. O café, preparado pontualmente, no mesmo horário, todos os dias. A mesa onde ele se sentava com as pernas cruzadas, fumando o cigarro e tomando aquele café que acabava de sair do fogo, enquanto proferia falas entre profundas pausas.
Duas casas. Dois afetos. As cozinhas que habitaram minha infância. E não em ocasiões especiais, mas no dia-a-dia, porque é neste lugar que está a construção da memória afetiva. O fortalecimento da raiz.
Sem TV para determinar o assunto que será debatido. Sem celulares para mostrar o último achado ou a última imagem fotografada. Apenas fogões, panelas, cheiros, mesas e pessoas. Se olhando. Interagindo. Vivendo.
Somos mulheres com medo da casa. Da cozinha. Das panelas. Somos mulheres criadas para não dependermos de nada, nem ninguém. Mas, que tipo de dependência seria essa? Mulheres independentes de capital e dependentes de afetos? Afetos que se constroem na vida. E vida que se constrói nas casas.
Saímos, ganhamos o mundo e deixamos que a casa fosse um lugar de passagem, um caminho entre estar e fazer, um eterno “entre”. É fora que se valora. E só quem produz renda, existe. Portanto, estar dentro é opressor e estar fora é libertador. Mas, será mesmo?  Por que? De que liberdade estamos falando? Que tipo de troca estamos fazendo e a que custo?
Para se produzir renda e capital, precisamos produzir vida. E, produzindo vida, temos que cuidar dela. Da roupa, da comida, das plantas, dos bichos, das crianças, de nós.
Não há fora, se não há dentro.
E é dentro se produz memória, história, respeito e humanidade.
É dentro que se constrói valores.
Estar fora é libertador mas estar dentro também deveria ser. O problema está no trabalho da casa, no que ela representa ou no valor que ela possui? A casa é chão, sedimentação, alicerce, segurança. Não é ponte, é ninho.

“A casa é nosso canto do mundo. Ela é, como se diz frequentemente, nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acepção do termo. “
Bachelard, em A Poética do Espaço

Ensinamos os valores da vida e das coisas que nela habitam, vivendo. E é na casa que a vida se faz.
– Você acha legal ter cozinha, panelas, vassouras e avental em casa? Não fica preocupada delas quererem ficar brincando só de casinha? Não acha opressor?
– Eu acharia opressor se fossem meninos e se eu não deixasse eles brincarem de casinha. Eles iriam crescer sem saber cuidar de vida. E é isso o que vemos com frequência.
Cuidar do bebê, da comida, dos bichos, das plantas e da casa é cuidar da vida.
E isso não é papel que tenha gênero. O ser humano deveria aprender valores muito antes de aprender números. E valores vem no cuidado da vida. Sem o cuidado com a vida, as contas se tornam incalculáveis.
A questão não é estar fora ou estar dentro, mas sim o valor que damos a esses lugares. Valor e não preço. E isso tem a ver com poder?

“O trabalho doméstico não remunerado das mulheres tem sido um dos principais pilares da produção capitalista, ao ser o trabalho que produz a força do trabalho. Argumentamos ainda que nossa subordinação aos homens no capitalismo foi causada por nossa não remuneração, e não pela natureza “improdutiva” do trabalho doméstico, e que a dominação masculina é baseada no poder que o salário confere aos homens.”
Silvia Federici, em Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva

Estamos construindo alicerces para nossas crianças entenderem o valor e a medida da vida. Estamos fortalecendo as raízes.
Que memórias afetivas deixaremos para nossas crianças? De que casa elas irão se lembrar? Suas memórias passarão pela cozinha?

“A casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem. Nessa integração, o princípio que faz a ligação é o devaneio. O passado, o presente e o futuro dão a casa dinamismos diferentes, dinamismos que frequentemente intervém, às vezes se opondo, às vezes estimulando-se um ao outro. A casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. Ela é corpo e alma.”
Bachelard, em A Poética do Espaço

 

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