A casa dos sonhos

por Paty Juliani

Quando você chegou, a parede era amarela. Nós escolhemos essa cor para te receber. A poltrona tinha sido encapada com as listras coloridas das cores do quadrinho que eu tinha feito com o seu nome. Nossa casa era um apartamento. Pequeno e suficiente. Um verdadeiro ninho.
Eu passava o dia no quarto de parede amarela, lutando para conseguir amamentar. Enfrentando meus assombros e buscando entender tudo o que estava acontecendo. Resistindo por acreditar que tudo daria certo.
Ali, aprendíamos a ser uma família.
Com o som pontual dos aviões no céu e as caminhadas de carrinho pelos quarteirões, fomos entendendo que tudo estava mudando.
Você sempre me pergunta como era a casa quando você chegou. E eu adoro falar da parede amarela.
Tinha essa parede mas também tinha a poltrona listrada. E tinha o chá da mamãe, o chá de camomila, e o CD lindo que nos acalmava. Conseguir te alimentar com meu corpo era minha meta. Entender tudo que estava acontecendo também.
Nosso ninho foi ganhando força e, foi ali, que seu pai entendeu a responsabilidade que teríamos para o resto de nossas vidas.
No meu puerpério sentido numa intensidade profunda, vi ele sentar no sofá e desabar. Era um misto de medo, alegria e tristeza. Era um amadurecer que caiu com força naquele corpo que ajudava a nos sustentar. Um entendimento que veio como um meteoro. E eu lembro com exatidão o momento em que isso se deu.
O enxoval do quartinho (lençóis e colchas) tinha sido preparado pela vovó e por uma amiga muito querida, em cores fortes, combinando com o quadro feito por mim. Os envelopes com as roupas da maternidade tinha sido confeccionadas pela outra vovó. A roupa escolhida para te receber foi vermelha. Porque eu queria força. Porque minha menina teria que ter proteção.
Gosto de falar sobre essa primeira casa e, gosto de ouvir seu pai falar sobre ela, todas as vezes que passamos ali perto, quando estamos em São Paulo. Ali, nós crescemos.
Depois disso, passamos um período confuso. O desejo de viver a maternidade com profundidade (sem prazos de calendário) lutando com a volta ao trabalho, contas, demandas e cobranças do mundo.
Isso coincidiu com mais dois apartamentos. Com muitas mudanças. E com sua irmã que sabíamos que chegaria rapidamente pois era um desejo comum e algo quase que profetizado.
A confusão externa e interna que sempre se conectam. Os excessos que consumiam por fora e que corroíam por dentro.
Caímos na cilada. Saímos do trilho.
Mudamos uma vez. Mudamos duas vezes. Reformamos. Aumentamos. Nos endividamos.
Era preciso. Era mesmo?
E sua irmã chegou. Chegou gritando. Exigindo e mostrando ao que veio.
E ela nos acordou.
Só queria meu peito e me mostrou o que deveria ser feito. Me tirou a venda e fez eu enxergar. Tudo estava ali, em nossa casa principal, em nossos corpos e em tudo que sentíamos.
O lar que ela chegou era suficiente. Tinha flores e pássaros coloridos no quarto de vocês. Tinha um moisés ao lado de minha cama. Tinha livre demanda e muito aconchego entre nós. Mas estávamos confusos, com tudo que as exigências externas. Com tudo que todos achamos ser necessário mas que efetivamente não é.
Era preciso ajustar, acertar, organizar, deixar tudo preparado. Porque eu teria que voltar a vida e tudo tinha que estar no lugar.
Mas a vida funciona assim? Parece que não.
Quebra parede, azulejo colorido, escritório calculado, cores escolhidas. Lixa o piso. Quebra mais parede. O lar perfeito. No bairro perfeito. Do tamanho perfeito.
Enquanto a reforma acontecia, mudanças internas também se davam.
Por fora, tudo resolvido. Por dentro, nada tinha sentido.
– Tudo que vivemos são sinais para mudanças. É preciso saber entender os sinais. É preciso enxergar – seu pai sempre me dizia (e continua dizendo).
E, de uma hora para outra, tudo ficou pra trás – lar perfeito, carreira, cidade escolhida para viver. E tantas e tantas coisas…
Foi doloroso. Muito doloroso. Mas foi como virar uma página para tudo ser novamente escrito.
Desde então, outros lares. O lustre pago a mil prestações nunca mais se encaixou. Os azulejos não são coloridos. Os tapetes sempre parecem improvisados. E os armários nunca são suficientes.
Mas veio cachorro, jabuticabeira, balanço de pneu, instrumentos musicais pela sala, desenhos colados ou desenhados nas paredes. Cozinha em miniatura de madeira, bercinho e bonecas ao lado da mesa de jantar. Tiramos a TV do quarto. Os livros foram espalhados pela casa e tudo parece sempre que está fora do lugar. Fiz as pazes com a cozinha, aceitei a força de minhas mãos e passei a escutar minha intuição.
Nunca mais falamos do lar ideal, sonhado e desejado. Talvez porque nossos sonhos tenham mudado. Ou talvez porque o lar ideal não exista.
Hoje, a casa não é a que um dia foi sonhada, não vive arrumada, não tem nem sequer as cores preferidas. Mas tem vida, tem a marca de vocês em cada cômodo. A churrasqueira que vira marcenaria e o escritório que vira ateliê. A sala que vira teatro, circo, escolinha e hospital. O quintal que vira floresta, casa e palco. E, assim, em nossa bagunça nos organizamos.
É legal relembrar as casas, todas as vezes que vocês perguntam. Gosto de lembrar da parede amarela e da parede de pássaros coloridos. Fico feliz de pensar nesse trajeto de casa lar mas, as memórias e histórias não serão dos azulejos, do tamanho do quarto ou do lustre perfeito. As memórias virão dos cheiros da cozinha, dos esconderijos encontrados, dos lugares inventados, dos afetos e da vida que se vive dentro delas.  Penso nesse caminho como um verdadeiro retorno a casa. A casa que não era a imaginada, mas que é a que nos constitui. Quando pergunto se você gosta da casa onde moramos, você sempre me diz que sim.
– Porque é a nossa casa, não é mamãe?
Sim, porque é a nossa casa. Simples assim.

“A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar”
Arnaldo Antunes

 

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