Como sobreviver num mundo que está acabando?

Por Pati Juliani

– Eles pedem para evitarmos aglomerações e lugares cheios mas…eles sabem que temos que trabalhar? E que para chegar ao trabalho precisamos pegar ônibus lotado? Eles pensam que todo mundo tem carro e pode ficar em casa sem receber? Só podem estar de brincadeira…, diz a faxineira.

A mulher para e ouve.

Não sabe o que dizer. 

Não tem o que dizer.

Sua faxineira tem razão: nada daquilo faz sentido.

Mas é hora de estar em um lugar com muitas pessoas.

Ela tem horário agendado para renovar um documento, no Poupatempo e não vê razão para remarca-lo.

O marido, na noite anterior, está convencido que o lugar estaria vazio.

– As pessoas estão com medo de sair de casa.

Mas ela sabe que não. 

Que estaria lotado porque as pessoas tinham que resolver o que era para ser resolvido e tinham que fazer o que era para ser feito.

A vida não podia parar.

Não para a maioria da população.

E ela não sentia medo, apesar do celular que não parava de apitar anunciando compartilhamentos de vídeos, áudios, previsões, constatações e análise sobre o tal vírus.

Segue para fazer o que tem que ser feito.

E, como ela havia previsto, o prédio está lotado.

Pessoas entrando e saindo. 

Senhas sendo distribuídas.

Ali, balcões e mesas separam pessoas.

E desse tipo de separação ela bem conhecia.

Já estivera do outro lado. E esses móveis lhe causavam um certo arrepio.

Alguns pequenos muros difíceis de serem rompidos.

– A senhora trouxe tudo? Original? Cópia? Apenas renovação e transferência de endereço? Trouxe o comprovante? Muito bem. Agora a senhora segue aquele corretor para poder atualizar seus dados de mudança de endereço. Depois, volte novamente aqui.

A mulher segue.

É prontamente atendida por um outro funcionário que lhe dá uma outra senha. 

Pega o papel e olha ao redor. Eram 8 mesas com computadores e, quando a senha chamava, a pessoa sentava e digitava seus dados no computador.

Os funcionários estavam de luva.

A população não.

Nenhum aviso. Nenhuma recomendação.

Por dentro dos balcões e mesas, tubos gigantes de álcool em gel e panos.

Por fora, nada.

A senha chama.

Ela se senta e começou a atualizar seus dados.

Quantas pessoas tinham passado por ali? Quantas mãos usaram aquelas teclas e mouse?

Ela que não era alarmista, pessimista ou qualquer outro “ista” que insistiam em classifica-la chegou a sentir receio. Começou a correr com os dedos. Teve vontade de lavar as mãos.

Que loucura, ela pensou. Não posso me render dessa maneira.

Saiu e voltou para a primeira mesa.

A mulher passando álcool do balcão para dentro, pegou novamente seus papéis com a luva e lhe deu nova senha.

Agora a senhora segue para o outro lado para o exame médico.

Muita gente na espera.

Enquanto uma servidora tenta conversar e esclarecer algo, o médico a chama.

Ele está irritado. Fala com muita rapidez, repetindo perguntas decoradas para preencher o papel.

Quantas vezes ele fazia aquelas perguntas? Será que em todas elas era com essa irritação, frieza e descaso? Será que ele não tinha tempo para trocar mais algumas palavras com aquelas pessoas ou ele apenas estava ali cumprindo seu papel enquanto o tempo avançava no relógio?

Enquanto responde as cores que as luzes mostrava, as perguntas sobre histórico médico e as letras que ela conseguia ver, sua cabeça não para. E o telefone também.

Ali na tela, pulavam mensagens e mais mensagens via whatsapp sobre o assunto do momento.

Quando foi que fizemos isso com a gente mesmo?

– Perfeito! Assine aqui e siga pela esquerda para efetuar o pagamento.

Lá vai ela novamente.

Na fila, um oriental efetua o pagamento.

Ao se aproximar do balcão, olha para a mulher que passa o gel desesperadamente sobre o balcão, com as mãos protegidas pelas luvas.

Ela olha de volta, esconde o gel e diz:

– Coreano, né? Vai que…

A mulher não sorri. Não acha graça.

Olha bem nos olhos da funcionária e pergunta:

– Posso colocar o cartão?

E, novamente, utiliza suas mãos. Tecla os números com força. Puxa o cartão.

Está com raiva. 

Mais raiva do que medo.

Muito mais.

Quer ir embora.

Olha para as pessoas separadas por mesas e balcões.

Dois cuidados.

Dois mundos.

De um lado os plásticos nas mãos e tubos de gel sendo utilizados e escondidos.

Do outro, pessoas colocando suas digitais em todos os lugares, sem aviso, sem determinação.

Ou seria sem escolha?

– Aqui está seu recibo. Agora é só vir buscar daqui 2 dias úteis.

Ela está visivelmente irritada.

Quer muito sair daquele lugar. Mas precisa lavar as mãos.

Procura pelo banheiro. Imagina que irá enfrentar uma grande fila.

Mas não.

Ninguém ali na pia.

Nenhuma fila.

Passa sabão, lava todos os dedos e sai com as mãos molhadas, escorrendo, abanando ao vento.

Está limpa, mas parece que não.

Que merda é essa que estamos vivendo?

Pega seu carro e vai para a escola dos filhos. É hora de busca-los. 

Param para almoçar com mais dois amigos.

Enquanto almoçam, uma das crianças fala:

– Nosso amigo faltou de novo. Não veio a semana inteira. 

E baixinho questiona:

– Será que é coronavírus?

Imediatamente a mulher reage:

– Não fale isso. Em hipótese nenhuma. Não é legal. Ele não deve ter nada e não devemos falar isso de ninguém. Parece que todo mundo enlouqueceu e está em pânico. Que loucura é essa?

O amigo que tinha faltado era oriental.

Ela estava alterada.

– Eu estou em pânico mamãe, diz seu filho Arthur, de apenas 5 anos.

– Pois não fique, meu amor. Ninguém aqui vai pegar doença nenhuma. Lavamos as mãos, cuidamos do corpo, comemos direitinho e ficamos forte. Nem esse, nem nenhum outro bicho irá nos deter, combinado?

Silêncio.

Mudaram de assunto.

Era dia de levar as crianças brincarem e fazerem atividades no Clube. Era dia dela também tentar fortalecer o corpo e a mente praticando, o mínimo que fosse, alguma atividade física.

Ela já havia recebido um comunicado do Clube dizendo que as atividades não estariam suspensas mas que não havia faltas se alguém não comparecesse, por precaução.

Ela ignorou o aviso e foi com seus filhos.

Ela tinha escolha.

No carro, Breno de 8 anos, novamente começa a conversa:

– Mamãe, você sabia que minha amiga está levando um tubo gigante de álcool em gel para a escola?

Antes que ela pudesse responder, o pequeno Arthur emenda:

– Eu quero levar um tubo gigante. Não quero ficar doente. Não quero ter vírus nem morrer. Eu vou morrer se eu não levar, mamãe?

Ela respira fundo.

Está cansada.

– Ninguém vai morrer. Temos água e sabão. Não precisamos de tubo gigante de nada.

Respira novamente.

Torce para chegar logo.

Será que nem as crianças podem ser poupadas dessa loucura?

Ela deixa os filhos nas atividades e segue para fazer seu exercício.

Tenta se concentrar nos movimentos. No corpo. Não quer pensar, falar ou ler nada.

A música está alta demais. Barulhenta demais. 

O celular que fica no balção ao lado, não para de apitar.

O ombro dói. Mas ela segue.

Termina a aula. E, enquanto toma água, escuta duas mulheres ao lado conversando:

– Meus pais são do grupo de risco. Por isso, decidiram tirar uns dias e vão ficar tranquilos lá na casa de praia.

– Certo eles. Ficar correndo risco para quê?

Ela para.

Olha para as mulheres.

Não sabe se o que sente é raiva ou tristeza.

Por que as pessoas são assim?

Sente o cansaço agora tomar-lhe as pernas.

O corpo todo começa a doer.

Pega as crianças, entra no carro e decreta:

– Prestem atenção porque só vou falar uma vez: ninguém vai pegar nada e não quero mais saber desse assunto por aqui. Vamos comer direito, ouvir música alta, dançar, ler, tomar bastante água e ficar brincando em casa. Combinado?

Silêncio.

Eles venceram!

Chega em casa, vai para o quintal e joga o celular na piscina.

Senta ao lado e começa a gargalhar. Uma gargalhada nervosa com lágrimas descendo em seu rosto.

As crianças não entendem nada.

O marido chega, põe a mão em seu ombro e pergunta o que está acontecendo.

A mulher então levanta, olha em seus olhos e decreta: 

– A partir de amanhã, as crianças não irão para a escola, eu ficarei com elas em casa e a faxineira não virá trabalhar. Ela irá receber o pagamento normalmente e nós vamos nos organizar com o serviço. Se você quiser, pode me acompanhar no confinamento, senão, chegue do trabalho, tome as precauções de higiene e venha nos ajudar.

O marido não entende nada e nada fala.

Sabe que é melhor não dizer.

Ela estava criando seu próprio muro. 

Uma escolha?

Ela sai e fecha a porta do banheiro. Agora só chora. Chora sozinha enquanto a água quente cai em seu corpo cansado.

Sente uma dor que não consegue classificar.

Coloca o pijama, toma um floral, acende um incenso e vai dormir pensando: como sobreviver num mundo que está acabando?

Porque ele está. 

E essa é a única certeza que ela tem.

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