Detalhes de uma pandemia em um pequeno universo

Por Paty Juliani

“Eu quero

Mais…

Brincar.

Dizer o que penso.

Fazer o que quero.

Saber até onde posso.

Você junto de mim.

Meus amigos por perto.

Ouvir histórias.

Verdade.

Ter mais…a sua atenção.

Transformar este mundo.

Fazer um novo atlas da vida…”

Adriana Friedmann

Rituais são sagrados.
Por meio deles, delimitamos espaços, definimos modos de ser e de viver.
Dentro de nossos lares, pequenos ritos acontecem. E nos fortalecem.
Fazia tempo que eu não perguntava se ela queria conversar, se tinha alguma coisa para me perguntar ou contar.
Eu sempre fazia isso. Todas as noites.
Até que um dia, tudo mudou. E as perguntas deixaram de ser feitas.
Naturalmente.
Porque não fazia mais sentido.
No lugar delas, ficou o chamego e o desejo de boa noite (depois de muitos “eu te amo”).
Mas hoje, sem perceber, as perguntas saíram de minha boca: quer conversar? perguntar alguma coisa? me contar algo?
Saíram e a pegaram de surpresa.
Ela abriu os olhos e disse: “não, está tudo bem”.
Me arrependi imediatamente. Senti um aperto tão grande no peito que ela deve ter percebido. Constrangida e me olhando, tentando encontrar algo no meio daquele situação, ela me diz: “Na verdade, tenho sim. Amanhã, a professora nos dividirá em grupos e ela falou que na atividade terá até Harry Potter”. Fez um esforço e encontrou algo de sua rotina que eu não havia participado. Deu um pequeno sorriso.
Tentei sorrir mas tive vontade de chorar.
Senti uma pontada forte no peito.
Abracei minha criança e consegui dizer: “que legal, meu amor”.
Desejei boa noite, mil vezes eu te amo e saí.
Me senti culpada por retomar, sem querer, algo que já não mais existia, mas que era tão precioso.
Porque esse era nosso pequeno ritual. O momento em que o mundo lá de fora de minha menina, se abria para mim.
Nesse nosso momento, as inseguranças, dúvidas e curiosidades sobre o que ela tinha vivenciado lá fora, com amigos e outras pessoas, longe de casa, apareciam. A alegria do que foi vivenciado, a incerteza de como agir, a tristeza de não ter controle sobre as situações e tudo que vivenciamos fora da segurança de nosso lar era compartilhado. Para sentir a segurança, para pedir ajuda.
Um momento nosso.
Um elo, uma cumplicidade.
Uma parceria que se fortalecia de fora para dentro. E de dentro para fora.
Para mim, o momento mais especial do dia.
A alegria de ouvir e observar seu crescimento. Acompanhar suas relações com os outros, com o mundo. Suas dúvidas, medos e alegrias.
Assim era.
Assim tinha sido.
Até tudo mudar.
Até não existir mais o estar fora.
As trocas e partilhar que se estabelecem no encontro e a importância do que nos fortalece aprendendo e compartilhando com nossos pares.
A vida que acontece para além de conteúdos expostos e tarefas com prazos a cumprir.
A troca.
A diversidade!
Hoje foi triste.
Para mim.
Para ela.
Pois tudo tinha mudado.
Sem palavras, entendemos isso.
O tamanho do que está acontecendo.
Nossa relação tem se fortalecido dentro do universo familiar. Mas e as vivências sociais que tanto nos ensinam?
Vou dormir pensando se, no meio dessa loucura paramos para pensar, efetivamente, em nossas crianças. Em tudo que elas estão deixando de ganhar e, de que maneira as relações irão se estabelecer quando tudo isso acabar.
Troca, tato, afeto, conhecimento, brincadeiras.
Correr, cair, sorrir, chorar, crescer.
Com outras crianças.
Com seus pares.
Com outros adultos.
Com o entorno.
Para fora.
Para o mundo.
Qual será o efetivo prejuízo em seus corpos, em suas almas, em suas vidas?
Adultos amenizam a saudade por telas. Adultos já se constituíram e possuem suas crenças, valores e memórias de afetos e pessoas que passaram por suas vidas. Foram transformadas por essas trocas. E as crianças? Estar com seus pares separados por uma tela não faz nenhum sentido.
É mentira. É tudo uma grande mentira.
E nós, adultos, o que fazemos?
Seguimos reclamando do excesso de trabalho de casa, do home office, da limitação para auxilar as crianças nas lições e aulas em casa, dos filhos em tempo integral, da falta de paciência.
Tudo isso é real e válido. Estamos esgotadas! Todos estão.
Mas qual a dimensão desses nossos problemas frente às perdas vivenciadas em silêncio pelas crianças?
Quando, de verdade, iremos abrir nossos olhos, crescer e ultrapassar nossas próprias limitações?

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