Tão Perto, tão Longe – quarentena do cansaço

Por Dede Lovitch

Há dias venho pensando como escrever tudo isso que está borbulhando na minha cabeça.

Comecei e agora penso, porque não escrevi antes, há dias?

Respondi, agora mesmo, para uma amiga uma mensagem: “quantas possibilidades”.

E é aí, bem nesse ponto que quero tocar, nas possibilidades, na pluralidade das possibilidades. Vou começar no possível, no latente, no urgente, no real.

Vou falar das nossas crianças, não só das minhas ou das suas, vou falar de todas, de todas as crianças que viraram o maior pesadelo da quarentena.

Antes de qualquer julgamento à minha frase, pensemos sobre o pesadelo, pesadelo nada mais é que um sonho com maus encontros; o sonho nos coloca em lugares comuns com pessoas estranhas, ou com pessoas comuns em lugares estranhos, ele escancara nosso inconsciente, sem disfarces, sem ordem linear, um caos. Muitas vezes conseguimos voar, respirar embaixo d’água (esse é o meu preferido), pular muito alto, falar outras línguas, pintar a monalisa, pilotar aviões, correr lado a lado com Usain Bolt, ficar pequenininha depois de comer um bolinho, ser crucificada (sim, igual Jesus, com pregos), cair do penhasco, gritar por ajuda e não ser ouvida, ter o cabelo puxado até arrancarem o seu coro, sangrar por todas as partes do corpo, morrer, encontrar um monstro e ser devorada por ele bem aos poucos, vestir uma roupa e sempre ficar pelada, ficar doente, muito doente, ver seus filhos chorarem no seu leito, ver uma criança morrer, conhecer essa criança, não ter certeza quem essa criança é, não conseguir ver o rosto dessa criança, finalmente a criança olha pra você e aí você acorda. Suada, aliviada e você fala: “Foi só um pesadelo”.

O que ou quem mais te leva a todos esses lugares, do medo, ansiedade, curiosidade, desespero, alegria, liberdade, dor, paixão, aflição, frio, calor, sufoco, vergonha, paralisia, ação e muitos outros? E ás vezes todos ao mesmo tempo.

Quem mais senão nossas crianças? Nosso maior pesadelo.

Como diria David Lynch sobre os sonhos: “é a fonte primordial para a energia criativa”. E eu diria isso sobre as crianças.

Enxerguemos as possibilidades, as oportunidades que nos estão sendo oferecidas neste tempo de pandemia. As crianças aqui, aqui bem pertinho. Não se trata de filhos somente, mas também daquela criança do seu prédio, da sua rua, da sua amiga, do seu irmão, do seu aluno, da sua aluna. Nunca estivemos tão próximos.

Quantas chances de observação, de reflexão. Descobrimos como eles são nas aulas, com os colegas, com os professores, descobrimos suas reais potências e fraquezas. Digo reais, porque enquanto estamos fora da escola não sabemos quem são somos filhos, onde eles se sentem mais confortáveis, desafiados ou acuados. Temos o ponto de vista deles e conseguimos deixar a vaidade parental de lado (pois não temos escolha), temos olhos mais críticos e as nossas demandas como cuidadores começam a mudar de lugar. Isso incomoda, fere e é aí que o pesadelo começa a se moldar, nossos filhos não são exatamente aquilo que pensávamos.

A construção de uma convivência saudável em família se dá no dia a dia, nos embates e nas conquistas. Comemorar e chorar junto, estar presente no momento do acontecimento, ninguém te contou, ninguém te falou, você viu, você sabe, porque você estava lá, e mais uma vez, enxergar tudo isso não é tão romântico como parece, ver sua criança comer sozinha é lindo, mas pra chegar até aí, quanta roupa suja, quanta comida no chão, quanta birra, engasgos, choros. Ver sua criança num canto da casa lendo é mais lindo ainda, mas o que você teve que fazer pra isso acontecer? Menos TV, menos tela, quantas brigas, quantas conversas, quanto você teve que ler junto, que construção cansativa e assim o pesadelo vai crescendo.

A constante demanda, chamam por você a todo momento, nenhum minuto de sossego, você não sabe o que fazer com isso, vontade de gritar e sair correndo; “quero me livrar disso!!!!! Preciso que as escolas abram! Não suporto mais.”

E o que você quer???? Você que sair disso, não consegue, grita e ninguém te escuta, parece que está sempre nua, e que um monstro está te consumindo. Sabe o que está acontecendo? Você não está aproveitando, sim, sim, sim, você não está aproveitando todo o seu privilégio. Quer se livrar de que? Pare, pense, reflita. Respire… respire de novo.

Quando, me digam quando vamos conseguir essa convivência intensa novamente?

É hora de se reinventar, criar, curtir, olhar, escutar, rever regras, repensar a vida…

Repensar a vida e o modo de vida, onde moramos, como moramos, Nessa quarentena podemos perceber se escolhemos certo.

Você não consegue mais ficar na sua casa? Não consegue mais ficar com sua família?

Você acredita que a escola vai te salvar? Que enfim vai poder se livrar do maior pesadelo?

Estamos cansadas. Sabem de que?

De estarmos vivendo num país onde mais de 100.000 mortos não é razão suficiente para ficarmos em casa.

De ler tantas notícias de outros países, em situações muito melhores que as nossas, que reabriram as escolas e tiveram que voltar atrás.

De saber que reabertura das escolas vai ser um fiasco.

De saber que a reabertura das escolas vai colocar toda uma comunidade em estado de vulnerabilidade.

De perceber que o convívio nas famílias está insustentável e as pessoas pensarem que o risco da reabertura das escolas ainda vale a pena.

De pensar que só se vai correr esse risco por dois motivos, o dinheiro e a incompetência humana de conviver com seus pares.

De ver que essa reabertura só é cogitada em escolas particulares, onde a possibilidade de manter as crianças em casa é infinitamente maior, que nas escolas públicas.

De ver algumas pessoas transferindo seus filhos da escola particular para a escola pública, simplesmente porque seus filhos não estão indo à escola.

De perceber que as escolas particulares estão sofrendo com essa falta de comprometimento.

De ver que uma menina de 10 anos foi violentada durante 4 anos, engravidou e no dia do seu aborto legal, várias pessoas, apoiadoras do governo, gritavam do lado de fora do hospital que são contra o aborto.

De ver que a vítima aqui nesse país vira culpada em questão de segundos

De ficar explicando porque ainda defendemos o #fiqueemcasa #nãoareaberturadasescolas.

Você está cansado, cansada?

Ah, por favor…

Mais amor.

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