No ano que tive medo de morrer, matei.

Por Paty Juliani

“A chama murmura, a chama geme. A chama é um ser que sofre. Sombrios murmúrios saem desse inferno. Toda pequena dor é a representação da dor do mundo(…) A solidão não tem história. Toda minha solidão cabe numa imagem” (BACHELARD, 2008).

O fogo da prece pedindo saúde e proteção, o fogo da cozinha que prepara alimentos, o fogo que destrói livros, o fogo que queima florestas, o fogo dos encontros, o fogo que aquece.

Xangô, o detentor dos trovões, tempestades e do fogo regeu o ano das perdas e revelações. Tal qual o sol, que nos aquece, fortalece e também nos queima.

– Mamãe, porque todos os dias você quer ficar no sol?

No ano que tive medo de morrer, matei.

Queimei linhas, rastros, vestígios, pistas. Queria levar, aquilo que um dia eu fui, comigo.

– Eu encontrei uns cadernos de minha mãe. Eram seus diários. Eu não li, nem os abri. Joguei no mar junto de suas cinzas, quando nos despedimos dela. 

Em um janeiro distante, ouvi essa fala de uma amiga muito querida. Eu não compreendia como aquilo poderia acontecer e admirei o tamanho de sua clareza, seu entendimento, respeito, cuidado, dignidade e amor.

Eu não tinha aquele tamanho.

E não tenho.

Querer completar lacunas, cobrir vácuos, organizar pensamentos, sistematizar percursos, compreender as pessoas é uma eterna tentativa. Abrir mão disso tem a ver com perdas, ganhos, finais e recomeços.

Mas sua mãe estava lá: na memória, na história, na construção de pequenos e absolutos espaços, e preenchimento de palavras poderiam (ou não) ressignificar uma vida.

– Eu não tinha esse direito.

E eu. Tenho?

As linhas traçadas, as palavras escritas eram parte do que sou.

O fogo ardia e eu o sentia. Eu matava, em cada brasa, cada estouro e cada sopro, porque tive medo de morrer.

Um matar para o renascer dentro de mim.

Bachelard, no livro “a psicanálise do fogo”, nos diz que tudo o que muda lentamente se explica pela vida, tudo o que muda velozmente se explica pelo fogo”. E o fogo nos acompanhou.

A menina, agora, só existia dentro de mim, pois seus fios, que virando cinzas, me fizeram lembrar, me trouxeram saudade. Desejei aconselha-la. Dialogar, discutir e também acolher sua ingenuidade, seus assombros, medos e alegrias. Desejei brigar e contar para ela o que aquelas sutilezas construíram dentro de mim. Mas agora a matei. De uma maneira com que todos esses desejos retornassem para ao seu lugar. Conservando-a, preservando-a, carregando-a para dentro, apenas para mim.

No ano que mergulhei na memória, nas histórias e nos gestos, o fogo me acompanhou.

A consciência da finitude, do incontrolável e a possibilidade da morte também.

Os fragmentos de nossos fios dizem o que sobre nós?

Quais deles deixar?

O medo foi o combustível. O fogo foi o caminho.

A fogueira que aqueceu o São João no quintal, para nós e os cachorros, foi novamente acesa. No silêncio. E na solidão. “Somente quando vivi na solidão é que fui senhor de minha lareira” (BACHELARD, 2008).

Foi um ano para observar com as crianças o que significa o presente do momento presente. E para sentir a força de nosso total descontrole sobre a vida.

– Não chora, meu amor. Hoje acenderemos uma vela para o passarinho. Vocês fizeram o possível, mas infelizmente ele não conseguiu se fortalecer para voar e reencontrar sua família.

O ano foi de morte, vida e permanência. 

– Já sei, meu amor: vamos dar um diário para ela de presente. Assim, ela nunca estará sozinha.

Um ano de finais e despedidas.

Temos escolha?

– Sonhei que eu escrevia. Escrevia muito. Escrevia tanto.

O que queremos deixar? O que, efetivamente, deixaremos?

No ano que o sol nos fornecia a vitamina, o fogo aquecia o chá das plantas no quintal.

– Mamãe, posso acender um incenso? Eu acendo sozinha.

O fogo. Sozinha. O luto pela morte.

Quantas vezes nos matamos enquanto vivemos?

“O ser fascinado ouve o apelo da fogueira. Para ele, a destruição é mais que uma mudança, é uma renovação” (BACHELARD, 2008).

O ano em que não terminarei me banhando nas águas salgadas de Iemanjá (como faço há quase vinte anos), é o ano que findará com a chama ainda acesa do fogão para o alimento e da vela para proteção em nosso lar. 

“ O fogo sugere o desejo de mudar, de apressar o tempo, de levar a vida a seu termo, a seu além” (BACHELARD, 2008). O fogo que sugere o devir.

No ano que tive medo de morrer, e que matei, sobrevivi.

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