Qual anzol te ancora na maternidade?

por Rita Durigan

Há tempos ensaio para escrever sobre a demonização da maternidade. Mas há sempre a sensação de que é puro julgamento, de que não posso falar pelo outro – no caso, pela outra – quando não estou na pele dela. Até que começamos a nos preparar para o 4º episódio do Podcast Criar com Asas: “Clickbait – Quantas vezes você já foi fisgado?” (ouça aqui), e essa inquietação veio a tona novamente.

Antes de gravar falamos muito sobre o que é julgamento e como ele se distancia da defesa de um posicionamento, ou não. E, mesmo durante a gravação do podcast, o tema da desromantização da maternidade, que já foi um clickbait potente para blogs de maternidade (não sabe o que é isso? A gente explica no podcast), foi ganhando contornos que deixavam claro onde estava o meu incômodo. É ingenuidade entrar na maternidade sem pensar que vai dar trabalho. Quantas vezes eu ouvi mulheres, inclusive amigas e pessoas que admiro, dizendo o “nunca me contaram que era difícil”. E sempre pensei: mas onde estava escrito que seria fácil?

Já sei. Nos comerciais de margarina e nos contos de fadas da Disney. Ia dizer que nos desenhos de super heroínas da Marvel, mas elas não têm filhos/as, têm?

E não é só trabalho físico: manter a criança alimentada, limpa, coordenar descanso, e manter o ambiente minimamente habitável para esse serzinho e toda a família. O preparar para a vida é que atravessa a gente. Quando você assume a responsabilidade de ajudar sua criança a abrir os próprios caminhos, abraçar sua inteireza, entender que a vida real não cabe numa casa de bonecas, dá um trabalho que não cabe em uma tese de doutorado.

O cansaço é parte do maternar. Físico, mental e emocional, porque eu ouso separar aqui mente e coração. E isso dói na maior parte das vezes. E porque vivemos em uma sociedade patriarcal onde as mulheres precisam se adaptar e entrar no sistema, dando conta de tudo e mais um pouco.

Abre-se o vão para o parir, mas não se pari o espaço necessário para o gestar da vida do lado de fora. A sociedade não se reorganiza. Ao contrário, vamos sufocando o feminino e acelerando o amadurecer natural de nossas crias.

Por isso tudo, sempre me pegou essa demonização da maternidade que respinga nas crianças, na infância, na impaciência com essa fase tão curta da vida e tão linda, importante e crucial no desenvolvimento de um ser humano. Essa pressa com que queremos que nossas crianças aprendam, engatinhem, falem, andem, comam sozinhas, se vistam sozinhas, não tenham mais medo, não chorem, não deem trabalho. Assassinamos a infância de nossos filhos e nossas filhas todos os dias, com pequenas atitudes, porque queremos descansar.

Legítimo querer descansar, pois temos questões profundas de uma sociedade que não dá espaço para a vivência do maternar, do gerar além do útero. Saiu de dentro, vai pra vida, se vira. Não temos mais tempo e paciência pro amor que se demora num abraço, num sorriso sem tic-tac de relógio, num brincar presente e sincero. Se estamos falando da maternidade, deveríamos falar do possível. Do tempo natural das coisas. Das pausas necessárias para respirar. Mas, não há pausa.

Estamos atropelando a humanidade.

É preciso entregar o relatório; fazer o almoço; limpar a casa; lavar a roupa; preparar o jantar; pensar na compra da semana…

É preciso ir ao shopping, arrumar o cabelo pro happy hour com as amigas; reservar os restaurantes em Paris; a babá e a folguista; encomendar máscaras novas daquela grife famosa, pelo menos pra onde exigirem…

É preciso acordar as 4h da manhã, deixar o restinho de arroz à vista pra que o filho mais velho prepare; ver se a roupa surrada pendurada na janela secou a tempo da criança vestir no dia seguinte, depois do banho na água sem tratamento que, por sorte, chega ao pequeno único cômodo compartilhado; correr pra não perder o ônibus das 5h30 pra chegar às 8h na casa da patroa; ter zelo, cuidado e atenção com a casa e a família que garante seu sustento; voltar pra casa exausta, ônibus lotado, chegar já com a noite caída e as crianças adormecidas (uma delas não tomou banho pra dormir); preparar tudo para amanhã que começa daqui a pouco…

Não importa a classe social, a infância não cabe em restaurantes, viagens de férias, agendas lotadas, compromissos de sobrevivência. Não importa a classe social, é no colo das mulheres que todas as responsabilidades sempre vão estar. A infância está sendo exterminada em frente às telas e adaptada à vida adulta que não tem mais pulso e acelera áudios, vozes, encontros (sobre isso, ouça o Podcast #3: “O que é escuta afinal?” aqui).

E tudo que a gente faz é brigar com as crianças pelas quais somos responsáveis para que nós ocupemos o papel infantil, pra suprir a infância que nos foi roubada. E nossas crianças que lutem quando chegar a hora.

Prefiro dar as mãos agora para a potência do feminino materno que pulsa até em mulheres que nunca geraram, mas que compreendem e não negam a extensão de seus braços e abraços. Prefiro lutar pela infância esmagada e permitir que floresça enquanto combatemos esse patriarcado que tenta nos sufocar a todas, mulheres e crianças, cobrando de nós o impossível das histórias das princesas e heroínas, a desistir de ter tempo pra contemplar e aprender com minha filha num simples parar pra apreciar as pedras e as flores.

Se pedir que a gente volte o olhar atento, presente e amoroso para a infância, e dê tempo pra que ela exista com inteireza, é romantizar a maternidade, então me deixe aqui com a poesia da vida que vou continuar gritando versos e distribuindo flores. Mesmo que isso canse. Eu tenho sorte. Tive infância, tive afeto e atenção que tinham espaço importante, mesmo na luta sobrevivente de meus pais. E esse é o maior legado que posso dar pra minha filha e pra infância que me cerca.

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