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Por Paty Juliani

Tenho duas filhas, um livro escrito que não consigo publicar e as árvores que plantei não vingaram. Sigo firme nas tentativas e talvez um dia eu chegue lá. Quem sabe?

Já passei da metade do caminho e, nesse busca constante pela compreensão dos propósitos da vida, tento deixar as roupas minimamente arrumadas, os lixos separados, a casa sempre com frutas e os olhos, ouvidos e a fala em prontidão para seguir em sanidade num mundo cada vez mais insano. E isso tem sido tarefa árdua.

Sigo com dificuldade em responder a pergunta “o que você faz?”, porque faço tantas coisas que os ofícios que desempenho para viver não podem delimitar essa resposta. Seria uma verdadeira injustiça.

Descobri que o pouco que sei de matemática não é o suficiente e que cada vez que tento ensinar minhas meninas, acabamos invertendo os papéis. Ou seja, aprendo e não ensino nada.

Ainda tento manter meus cachos apesar das tintas (que ensaio um dia abandonar), danço sem saber dançar e sigo a cantar (não importa onde, porque e nem para quem).

Continuo intercalando a leitura de romances com biografias porque as histórias reais podem não ser as mais bonitas, mas com certeza são as mais interessantes.

Descobri na pandemia (experimentando) que minhas unhas gostam de muitas cores, apesar do vermelho aberto seguir sendo meu xodó. É quente, vivo e intenso. Paixão mesmo.

Adoro sandália amarela e outros acessórios dessa cor, mesmo tendo dificuldades em vesti-la. Nunca consigo.

Mesmo estando atenta, nunca encontrei formas e contornos mais lindos que as folhas das árvores, nem paleta de cores mais belas que a dos verdes da natureza. 

Amo brincos grandes, colares compridos, botas sem salto e saias longas e não estou nem ai se sou pequena para usa-las, afinal, moda é atitude e essa é absolutamente singular. Dane-se.

Minha angústia não é pelo excesso de demandas, mas pelas constantes interrupções no fazer de todas elas. Começos e finais são importantes, mas entre eles há uma linha que deve ser respeitada e encarada com presença, atenção e calma, senão o sentido se perde e tudo vira obrigação insuportável (e insustentável).

Há coisas que nunca compreenderei e isso tem, cada dia mais, perdido a importância. É melhor não perder tempo, ele é precioso demais.

Ainda não encontrei o desenho exato e o traço delicado para a tatuagem que sempre quis fazer. Mas sempre acho que dará tempo. Será?

Por causa de minhas meninas, sigo a curtir astros do skate e da ginástica, porém nunca abandonei os cantores roqueiros paixões de toda uma vida. Sou muito fiel.

Goiaba ainda é minha fruta preferida e desconfio que isso talvez seja por sua cor incrivelmente bela porque o gosto de banana, hoje, me parece melhor.

Paz, para mim, é som de mar. E água com sal no corpo abastece minha alma muito mais do que qualquer invenção feita com açúcar. Já cortei isso faz tempo.

Vi que o tempo tinha passado quando, dia desses, fiquei no estacionamento de algum lugar qualquer, curtindo Foo Fighters em alto e bom som com minha filha. 

Uma vez ouvi de uma sábia senhora que minha força está em minha voz e que eu nunca poderia deixar de usa-la. Mas, sendo neta de alfaiate e cozinheira, mantenho a crença na força, também, de minhas mãos e isso faz com que eu me equilibre, sempre, nesses dois lugares.

Meu brigadeiro é o melhor do mundo (minhas meninas podem confirmar), mas uma das metas da vida é conseguir fazer meu próprio pão de queijo. Peço essa receita para todas que cozinham. Sem pudor.

Respeito muito quem presenteia outras pessoas com livros, mas respeito mais ainda quem se presenteia com essas jóias. Sim, também respeito minhas lágrimas, “mas ainda mais minha risada”. Caetano eu sempre te amarei.

Hoje degusto mais café puro do que qualquer outra bebida porque sei que a cerveja gelada só é boa, de verdade, se a companhia for melhor. E, sempre que ela vem, não perco a oportunidade. 

Cada dia mais confirmo que amor se (re)conhece pelo cheiro e nisso, tenho sorte. Minha casa é a confirmação dessa teoria. 

Toda vez que vejo nossa cachorra gigante (que tem nome de flor) dormindo nas camas, ocupando meu lugar no sofá e deitada nos meus pés enquanto lavo a louça, confirmo que o amor opera com pequenos milagres. Jamais, em tempo algum, imaginei que isso seria possível.

Diferentemente do que sempre tentaram me fazer acreditar, hoje sei que mulheres não só são amigas de mulheres, como são imprescindíveis na nossa vida. Há entre nós a irmandade de sangue, mas também a de alma (e isso é literalmente ancestral).

Resolvo meus problemas e tenho minhas melhores ideias no banho ou nas caminhadas. E sigo frustrada por não incluir o sono nesta lista. Eles seguem parecendo filmes de David Lynch, sem tradução e, dificilmente, os lembro.

Sou da noite e o silêncio da madrugada me alinha. Ainda é nele que trabalho, estudo e funciono melhor, apesar do dia ser sinônimo de maternidade ativa (querendo ou não).

A escrita, hoje, é minha bicicleta, apesar da bicicleta continuar sendo a bicicleta. E ambas, tem a possibilidade de me fazer voar.

Não sou planta, mas preciso fazer minha fotossíntese diária e vivo procurando o sol nas brechas, frestas e janelas. Vitamina D é vida.

Ainda tenho mais dificuldade de dizer “não” do que “sim”. É um eterno exercício de limites e cuidados. 

Sei que Belchior tinha razão, por isso “amar e mudar as coisas me interessa mais”. E, assim, eu não estou interessada em nenhuma teoria e “meu delírio é a experiência com coisas reais”. 

Não há nada mais gostoso do que partilhar a vida ao lado de pessoas que tenham uma visão de mundo próximas as nossas (apesar de todas as outras diferenças). Com elas podemos ser quem somos, falar sobre tudo e refletir sobre qualquer coisa, sem julgamentos. Aqui, minhas divindades trabalham bem e quem tem que ir, sempre vai e quem tem que ficar, sempre fica. Hoje confio e agradeço sem muito lamentar. Sempre é como tem que ser.

Meu altar é ecumênico porque é assim que gosto de viver. Sempre gostei mais de caleidoscópio do que de luneta. Olhar por todos os lados vale muito a pena.

Algumas pessoas (poucas) conseguem o que quiser de mim – de gravação de podcast, pedido de desculpas até planejamento de viagem à Mongólia. Tenho boas e grandes amigas. Choramos, mas também sorrimos muito juntas.

Gosto muito mais de feijão do que de arroz e tenho me aprimorado nesse sentido. Passado mais de 40 anos, perdi o medo da panela de pressão e ele está quase bom. Uma grande conquista.

Furei a parede de todas as casa que morei (e não foram poucas), sem medo, para pendurar meus quadros. Casa, para mim, é templo e ele deve ter o rastro e contar a história de seus donos. Não vejo a hora disso acontecer novamente.

Mudei mais do que gostaria (de casa, trabalho, cidade), mas não tenho medo. A escorpiana que habita em mim (com sol e lua) nessas horas se fortalece. E acho isso bem bonito.

Ainda choro ouvindo Bethânia, sigo pelo mundo prestando atenção nas cores de Almodóvar (como Adriana) e acho que Zeca Baleiro seria meu grande amigo.

Sinto saudade do que não vivi, mas não carrego nostalgia pelo que se foi. O presente me ocupa demais. E ele deve ser encarado assim: como um presente.

Tenho uma filha que é a versão melhorada do pai e outra que é a versão melhorada de mim. Isso me conforta e me alegra, apesar de amar a versão original do meu jogador de bola preferido. 

Já passei do meio da vida e, hoje, o grande feito que tento realizar é criar meninas seguras e com alto estima elevada. Se conseguir, terá valido a pena, ou melhor, terá valido a vida.

Nunca desisti de me levantar e isso me orgulha tanto quanto saber que amo quase tudo e quase todos. E, quando isso não acontece, me esforço apenas para não gostar porque odiar não me pertence. Nunca pertenceu.

O saldo tem sido positivo e isso é muita coisa. Por isso hoje, dia 23, apenas celebro e agradeço. É o meu dia. E sempre o considerei assim, todo meu.

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