O primeiro dia sem máscara

por Rita Durigan

As crianças se olhavam, sorriam. 

Sorriam mais, como se quisessem testar até onde iam os cantos das bocas. 

Os olhos nem se preocupavam tanto em sorrir, 

agora lhes bastavam brilhar. 

Tanto brilho. 

Tanto sorriso cheio de brilho. 

Era um reconhecimento. Um reencontro. Um novo começo recomeçando. 

O som das crianças tinha uma alegria contagiante. Maior que antes, mais alto.

Era tão alto que quase se confundia ao silêncio.

Era aquele barulhinho harmonioso como canção. 

Parecia o primeiro dia de aula. Sabe? Quando você ama a escola, 

estava com saudade dos amigos,

de experimentar o novo e reexperimentar de novo. 

Era manhã de inverno, ainda. Mas o dia estava quente, já. 

Um quente perfeito. Dia lindo.

Os pássaros entoavam seus cantos em harmonia com os andares saltitantes das ruas, invadidas de infância.

O dia havia chegado e não poderia ser melhor. 

Começou com uma contagem regressiva. Progressiva.

– Mamãe, você vai me deixar ir sem, né?

– Vou, filha. 

– Mamãe, na aula de bateria não vai precisar usar. Eu perguntei.

– Que bom filha.

– Mamãe, no teatro vai ter que usar um tempo ainda. Mas tudo bem, é só um tempo. 

– Tudo bem, filha. Eles devem ter seus motivos. 

– É que a gente canta, mamãe. E fica bem pertinho. E fala muito também. 

– Com certeza é por isso. Você está feliz, né? 

– Como eu não estaria? O meu sonho está virando realidade.

Desde o anúncio de que em 7 de março as máscaras não seriam mais obrigatórias nas escolas de alguns lugares dos Estados Unidos, como no estado onde eu moro, esse tem sido um tema recorrente em nossas conversas. Em dias diferentes. Em conversas mais longas ou mesmo em diálogos simples e curtos.  

Eu, que fui a mãe neurótica durante muito tempo da pandemia, fui, passo a passo, entendendo onde podia pisar. Fui aprendendo. Fui tateando. Foram momentos difíceis, outros quase imperceptíveis. Tem sido um dia de cada vez.

Um processo esse renascer. 

Falamos muito sobre os exageros. Reconhecer minhas angustias é parte desse seguir em frente. E falar sobre elas também. 

A máscara ainda há de ser importante em alguns momentos. Ainda protege. 

Ainda será refúgio para tantos e tantas,

e como há significados diversos em precisar vestir a máscara. 

Há de se tornar aliada em momentos pontuais.

Esperança. 

Mas as expressões soltas são tão mais lindas e compreensíveis. 

Essas crianças mereciam poder se ver e serem vistas. 

Um brincar de encontrar o tesouro escondido.

Redescobrir. 

Foi lindo de ver. E ainda me pego sorrindo lembrando dessa manhã.

O sol na pele, os sorrisos nos rostos.

Os rostos e suas alegrias de se reconhecer. 

OBS. Queria tanto que todos pudessem sentir isso logo. Sei que nosso maior público é brasileiro e que a realidade ainda é diferente por ai, mas estamos caminhando. Sei também que há tantas realidades distintas, países que ainda não têm vacina para todos; famílias que ainda não podem abrir mão da máscara, seja pelo motivo que for, e precisamos ajudar nossas crianças – e nós mesmos – na compreensão de outras realidades e no acolhimento delas. 

Mas precisava registrar esse dia. A luz desse dia. A possibilidade de viver esse dia. 

Primeiro dia sem máscara na escola. Primeiro dia sem casaco no inverno de 2022. Indo pra escola com o amigo cão.

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