Dois mil e vinte e dois

Por Paty Juliani

Cyro Del Nero disse, em uma entrevista, que há algo de xamânico no espaço entre a coxia e o palco. 

Eu sempre penso que esse tempo e espaço determina não só o que irá acontecer dentro desse lugar sagrado, mas também o resultado de todas as escolhas e entregas feitas antes desse momento.

– Você tem noção de tudo que você conseguiu esse ano?

– Tenho!

E o abraço que damos me mostra o seu orgulho.

O nosso orgulho.

Não foi apenas a transição para o fundamental 2, em uma nova escola (sem nenhum amigo da anterior), mas está sendo a travessia para o adolescer, o reconhecimento no próprio corpo e nas inúmeras transformações (internas e externas).

Crescer não é fácil. Nunca foi.

Eu sempre disse não estar preparada para a adolescência de vocês, mas você tem me mostrado esse lindo caminho.

Há mudanças profundas em nós. 

Crescer, adolescer, envelhecer. 

A maneira como percorremos esse trajeto determina como será essa chegada e o reconhecimento de tudo que se fez, bem como a consciência de quem se é, fortalece nossos passos.

E estamos atravessando nossos próprios percursos de mãos dadas. 

Enquanto o mundo lá fora segue gritando na agressividade e violência, na loucura e covardia, no desespero pela imposição de idéias, escolhas e discursos, a esperança, liberdade e amor nos acompanham – em nossas conversas, em suas descobertas, em minhas escolhas. No nosso pequeno e imenso universo.

Agora nossa casa tem um caminho de lavandas. A roseira se firmou com suas pétalas vermelhas e intensas. Estive entre meninas e mulheres, entre fios de linhas e escritas. Costurei nossas próprias roupas e lancei o livro que traz o registro de algumas de nossas histórias. 
São rastros que tenho deixado pelo caminho. E é tudo grande demais, mesmo que eu me esqueça disso – às vezes.

Teve vacinas, florais, acupuntura, mapa astral e yoga. Cortes de cabelos, tingimentos, resistências à modismos estéticos, falta de grana, sobra de idéias, afeto, conversas e amigas para acolher e nos segurar quando preciso.

O ano difícil que começou com Covid e suas consequências (e termina com esse mesmo fantasma nos rondando), deixa suas marcas de beleza.

E esperança.

Ve-la antes de entrar – no palco, na adolescência, na vida, tem sido transformador!

E se há força na delicadeza, há potência na alegria.

Enquanto você constrói suas belas asas e se prepara para sair do casulo, sua irmã termina o ano com nariz de palhaço, codinome de macarrão, jogando água na própria cabeça (sem titubear) sendo assistida por uma platéia. A segurança de quem se joga sem medo no que faz (sem se preocupar com julgamentos alheios) é tudo que eu sempre quis ter na vida. E agora tenho – através dessa nossa pequena gigante.

Essa intensidade nos ajuda. E você também sabe disso.

Obrigada, meu amor.

Você e sua irmã sempre serão minha melhor versão, visão e companhia.

Que venha o ano 23.

Meu número de vida, nascimento e sorte ♥️.

(Cyro Del Nero – foi um renomado cenógrafo, figurinista, fotógrafo de cena e professor universitário de Artes na USP. Um homem do teatro, que nasceu e viveu em São Paulo de 1931 a 2010, ano em que faleceu)

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